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Anonimato ajuda a combater o preconceito na universidade

Ocultar documentos que informam a identificação de pesquisadores evita que gênero seja critério de diferenciação

fevereiro de 2015
Shutterstock

Cientistas se orgulham de sua objetividade, mas quando se trata de gênero e etnia são tão parciais quanto qualquer outra pessoa. Um estudo de 1999, por exemplo, descobriu que psicólogos acadêmicos eram mais propensos a recomendar a contratação de um candidato a emprego do sexo masculino que de uma mulher, mesmo que ambos tivessem históricos idênticos. Ou seja: um currículo com nome masculino tem maior probabilidade de ser bem avaliado. Inúmeros estudos mostram que mulheres cientistas recebem cartas de recomendação mais fracas. Além disso, enquanto candidatas a uma posição no corpo docente de uma escola médica costumam ser chamadas de “professoras” e “alunas”, os homens recebem o tratamento de “pesquisadores” e “profissionais”.

Esses preconceitos são inconscientes e sutis, mas desagradáveis o suficiente para suprimir a diversidade de alunos e de docentes em muitos departamentos de ciência, engenharia e matemática das universidades – e na mão de obra científica em geral. O mais preocupante é que ideias pré-concebidas, tomadas como verdadeiras, não podem simplesmente desaparecer num piscar de olhos. Por isso é importante ficar atento. Instituições, por exemplo, devem se esforçar para eliminar as oportunidades de preconceito implícito que afetam as decisões sobre contratações e promoções.

Uma maneira simples de ajudar a garantir que os candidatos mais merecedores recebam as recompensas é ocultar documentos que informam a identificação. Assim, se os currículos tiverem apenas um número que os identifique, comissões de admissão poderão não favorecer candidatos brancos do sexo masculino. Um estudo de 2012 de dados suecos sobre solicitações de emprego na vida real mostrou que práticas de contratação de anônimos aumentaram as chances de mulheres e de minorias chegarem à fase da entrevista. O mesmo ocorreu com um programa-piloto alemão de 2010-2011, quando as empresas participantes omitiram detalhes pessoais, como idade e sexo, de pedidos de emprego. Orquestras sinfônicas descobriram que são mais propensas a contratar mulheres quando os músicos fazem o teste atrás de um biombo.

Muitos psicólogos acreditam que o anonimato introduz um elemento de dúvida que ajuda aqueles que fazem a avaliação a buscar a objetividade. No momento em que um candidato se apresenta para a entrevista, o contratante terá melhor possibilidade de formar uma primeira impressão com base no trabalho e na experiência, sem conexão com estereótipos. O anonimato também pode contribuir na atribuição de notas de trabalhos de classe e na revisão de bolsas de estudo e pesquisa, melhorando as probabilidades de aceitação de mulheres e outras minorias. A revisão por pares duplo-cego, em que a identidade de autor e revisor é ocultada um do outro, já é comum nas ciências sociais e nas humanas, e agora revistas científicas estão começando a usá-la. Um estudo de revisão por pares duplo-cego começou em junho de 2013 na Nature Geoscience, Nature Climate Change e Conservation Biology, integrantes do grupo Scientific American.

A linguagem também é importante. Quando um prêmio do Instituto Nacional de Saúde, nos Estados Unidos, enfatizou a “tomada de risco agressiva” entre seus critérios, os nove primeiros vencedores eram homens; depois, termos como “pioneiro” e “alto impacto” atraíram e recompensaram mais mulheres. De fato, identificar – e driblar – o preconceito implícito não é tarefa fácil, mas é possível que organizações científicas e a mídia voltada à divulgação científica se mantenham atentas a essa necessidade. 

 

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