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Aprendendo a pensar

Pesquisadores constatam que desde cedo crianças comparam características e se lembram do que viram e ouviram

 

abril de 2015
Selma Corrêa
SHUTTERSTOCK

Ainda que os bebês quase não falem antes de 1 ano, estudos mostram que eles já pensam, têm capacidade de memorização e conseguem fazer comparações que os ajudam a organizar suas experiências – preparando-se para acumular outras. Com isso, organizam o ambiente em que vivem. “A quantidade de novas impressões adquiridas pelo recém-nascido é incontável e surge o tempo todo, ameaçando sobrecarregar seu cérebro – daí a urgência dessa organização”, explica Sabina Pauen, professora de psicologia do desenvolvimento da Universidade de Heidelberg, na Alemanha. “Para dar certa ordem a esse volume de informações, o bebê separa tudo em categorias, como se as distribuísse em gavetas em seu intelecto”, explica. Assim, a criança não precisa reaprender todas as características daquilo que surge em sua vida, mas pode transferir sua experiência com determinado objeto para outros ainda desconhecidos. Ao ver um caminhão, por exemplo, ela o aproxima mentalmente de um ônibus. Também é comum que no momento em que os pequenos criam a categoria “cadeira”, passem a reconhecer imediatamente o mesmo objeto como um “lugar para sentar”, ainda que com cor e forma diferentes e a peça esteja em uma casa desconhecida.

Como a categorização ocorre na fase em que os pequenos desenvolvem a capacidade óptica de forma plena, a hipótese mais provável é que se orientem, em especial, pela aparência do que veem. Nesse caso, provavelmente conseguem agrupar primeiro o que tem aparência similar e, ao mesmo tempo, é bastante diverso de outros objetos – ou seja, classes como gatos, cachorros, cadeiras ou mesas, identificadas de forma básica. Em contraposição, categorias globais como animais, móveis ou veículos motores seriam mais complicadas de organizar, pois incluem objetos de aparência muito variada.

“Nossas experiências, porém, chegaram ao resultado oposto: categorias globais são diferenciadas antes de básicas”, afirma Sabina. Segundo ela, não é apenas a semelhança externa que determina a divisão em categorias, pois crianças de 11 meses conseguem distinguir tanto os modelos de animais e móveis aparentemente muito semelhantes como aqueles que apresentam todas as diferenças naturais entre as duas classes de objetos. “Bebês com mais idade, portanto, constroem novas categorias não apenas por meio de uma abstração visual, já que, do contrário, teriam categorizado melhor os modelos mais fáceis de diferenciar”, afirma. Algo, porém, intrigava a pesquisadora: afinal, o que guia a categorização? Os conhecimentos e as experiências prévias teriam algum papel aqui? Nesse caso, animais apresentados aos pequenos voluntários em fases iniciais dos testes deveriam fazê-los se lembrar de bichos de verdade. A favor de tal suposição existe o fato de que as crianças que crescem em companhia de um gato ou de um cachorro são capazes de distinguir esses animais aos 9 meses, enquanto aquelas sem essa experiência não conseguem executar tal tarefa nem mesmo aos 11. Independentemente do que orienta o bebê para a categorização, é necessário que ele consiga imaginar as coisas de alguma forma, o que os psicólogos denominam “formação de representação mais estáveis” (uma ideia persistente e com consistência a respeito de algo).

Quem convive com crianças pequenas percebe, a todo momento, que muito antes de dominar as palavras e construir frases elas já se recordam concretamente de objetos e pessoas e estruturam tal lembrança em pensamento. Por volta do 7o mês, por exemplo, surge o medo de gente desconhecida: muitos já não vão para o colo daqueles que não conhecem, como faziam antes, preferindo claramente os mais próximos. Isso significa que já conseguem diferenciar os conhecidos dos estranhos e já reconhecem a mãe até em fotos, identificam as pessoas pela aparência e recorrem a experiências para interpretar o que veem.

Isso, porém, não explica como constroem categorias globais. O que faz com que bebês sejam capazes de distinguir seres vivos de coisas inanimadas? Aqui a teoria da evolução nos dá uma dica. Animais e humanos podem significar perigo ou solicitude à criança indefesa. Por isso, é aconselhável observar seres vivos com mais atenção que objetos – e para tanto é necessário primeiro saber diferenciá-los. Nesse caso, provavelmente, são ativados comportamentos de percepção natos. Por isso, recém-nascidos se interessam especialmente por rostos e preferem observá-los a outras coisas com padrões de complexidade semelhante. Esse interesse próprio dos bebês por movimentos em seu campo de visão os ajuda a perceber logo a diferença entre seres vivos e coisas. Dessa maneira, já nos primeiros meses de vida eles aprendem que nem tudo consegue se movimentar sozinho.

 

CHUTAR O MÓBILE

Vários estudos têm demonstrado que a capacidade de aprendizagem já se inicia no período fetal. A memória, uma das funções cognitivas fundamentais, desenvolve-se, desde antes do nascimento, de forma quantitativa e qualitativa, paralelamente à maturação cerebral. Segundo a psicóloga Flavia Heloísa dos Santos, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Assis, o recém-nascido é predisposto a registrar e recordar importantes sinais biológicos, como as expressões faciais e a fala.

Recém-nascidos expostos à mãe por apenas algumas horas olham mais profundamente para a face dela que para a de estranhos. A autora cita uma série de pesquisas feitas com bebês nas quais foi usado o paradigma de resposta do chute de um móbile em movimento, o que demonstra que os sistemas de explícito e implícito da memória de longo prazo se desenvolvem no mesmo espaço de tempo – e não sequencialmente. A memória explícita, de caráter consciente e intencional, armazena fatos, nomes e eventos; já a implícita relaciona-se aos hábitos e habilidades adquiridos.

O tempo médio de retenção, quando a informação é repetida várias vezes (como no caso do movimento do móbile), expande-se com a idade. “Aos 2 meses dura cerca de 2 dias, aos 9 aumenta abrupta e progressivamente; e com 1 ano e meio alcança 13 semanas”, afirma a neuropsicóloga clínica Mônica Carolina Miranda, doutora em ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil da instituição. Ela lembra que a retenção mnêmica de eventos também mostra padrão específico. Por exemplo: aos 3 meses, o bebê já guarda informações sobre lugares onde ocorreram determinados acontecimentos; aos 6, incorpora algumas informações de ordem temporal dos fatos. “As experiências de vida no período neonatal, como as sensações relacionadas à fome, ativam vias neurais específicas com a respectiva associação límbica, modulando o humor e a emoção”, ressalta. São esses padrões rudimentares de atividade neural que fornecerão a base do desenvolvimento psicológico da criança, permitindo entender de que forma os bebês acumulam experiências iniciais e como isso afetará seu comportamento mais tarde.

Outro processo cognitivo, de extrema importância, é o desenvolvimento da atenção. O neuropsicólogo Alexander R. Luria (1902-1977), especialista em psicologia do desenvolvimento, enfatizou que a atenção, principalmente a voluntária, não é de origem biológica – mas um ato social. A concentração da criança nos primeiros meses de vida é mais elementar e involuntária, já que atraída pelos estímulos que lhe são biologicamente significativos. No final do primeiro ano de vida, quando a mãe, ou outro adulto próximo, nomeia um objeto e o aponta, a atenção do bebê é atraída para ele – e isso se dá por meio da comunicação social, palavras ou gestos, estágio fundamental do desenvolvimento infantil, base do comportamento direcional, organizado.

“Podemos pensar que o desenvolvimento cognitivo não é contínuo e homogêneo, depende da interação entre os múltiplos fatores de crescimento das áreas cerebrais, do grau de mielinização da evolução pré-natal e das possibilidades que o cérebro imaturo tem de reorganizar padrões de respostas e conexões por meio de novas experiências”, diz a neuropsicóloga Maria Elisa Prado.  Há ainda as influências ambientais. Como centro do pensamento, das emoções, dos planos de ação e da autorregulação da mente e do corpo, o cérebro passa por um longo processo de crescimento – que de fato dura a vida inteira. Esse desenvolvimento é mais intenso nos primeiros anos e bastante acelerado no decorrer da infância até a fase da adolescência e do início da vida adulta. Isso quer dizer que as experiências precoces têm impacto profundo sobre o potencial subsequente de cada pessoa.

 

BARREIRAS DOS SÍMBOLOS

Outro passo importante no desenvolvimento mental infantil é passar a pensar simbolicamente – algo que envolve, além da memória, habilidades de raciocínio e observação. Dada a complexidade desse processo, as crianças pequenas tendem a “misturar” objetos reais e seus símbolos logo que percebem que uma coisa pode representar outra. “A capacidade de criar e operar uma grande variedade de representações é o que mais distingue os humanos de outras criaturas. Essa habilidade nos permite transmitir informações de uma geração a outra, o que torna possível a cultura e a aquisição de repertório sobre certos assuntos sem ter a experiência direta”, afirma a psicóloga Judy S. DeLoache, doutora em desenvolvimento infantil, professora das universidades de Virgínia e Illinois. “Temos conhecimento dos dinossauros apesar de jamais termos visto um de verdade; por causa desse papel fundamental da simbolização, talvez nenhum aspecto do desenvolvimento humano seja mais importante do que a compreensão dos símbolos”, diz.

O primeiro tipo de objeto simbólico que os bebês dominam é a figura, embora ela os intrigue. O problema deriva da dualidade inerente a todos os objetos simbólicos: eles são reais e, ao mesmo tempo, representações de outra coisa. Judy alerta para o fato de que numa sociedade como a nossa, tão rica em imagens, a maioria das crianças tem acesso diário a fotos e ilustrações. Dessas interações, aprendem de que modo as figuras diferem dos objetos e passam a reconhecer esse material como fontes de contemplação – e não de interação. Mas são necessários vários anos para serem completamente compreendidas. O pesquisador John H. Flavell, da Universidade Stanford, descobriu, por exemplo, que até os 4 anos muitas crianças pensam que virar de cabeça para baixo uma figura de tigela com pipoca faz a pipoca cair do recipiente.





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