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Armadura para o feto

Estudos revelam que a placenta faz mais que alimentar o bebê dentro do útero, é fundamental para moldar o desenvolvimento cerebral

maio de 2012
©ZF/SHUTTERSTOCK
por Claudia Kalb

Ainda que seja um órgão transitório, a placenta tem grande importância para a vida, já que em sua curta existência funciona como proteção para o feto. Seus vasos sanguíneos – semelhantes a raízes de árvores (veja imagem ao fundo da pág.), obtida por Norman Barker, professor-associado de patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins) – também transportam oxigênio e nutrientes essenciais da mãe para o bebê em desenvolvimento. Ainda assim, a placenta tem sido desvalorizada. Uma análise científica cuidadosa mostrou que o órgão representa muito mais que um simples invólucro: ele molda o desenvolvimento neurológico do feto.

Em um estudo publicado em agosto de 2011, pesquisadores britânicos mostraram que, quando uma fêmea de camundongo que está esperando filhote é privada de alimento, a placenta assume o comando, destruindo seu próprio tecido para “alimentar” o cérebro do feto. Um grupo de cientistas do Instituto Neurogenético Zilkha da Universidade de Southern (ZNI, na sigla em inglês), na Califórnia, derrubou décadas de dogma biológico ao relatar que é a placenta – e não exatamente a mãe – que fornece o hormônio serotonina ao prosencéfalo do feto no início do desenvolvimento. Como hormônios desempenham papel essencial nas conexões cerebrais, anormalidades placentárias podem significar risco de o feto desenvolver depressão, ansiedade e até autismo antes mesmo de os neurotransmissores começarem a funcionar. “Por isso, é preciso estar muito atento à saúde e aos cuidados da placenta”, ressalta Pat Levitt, diretor do ZNI e coautor do estudo.

Investigações sobre a influência desse órgão no desenvolvimento cerebral são tão recentes que ainda não foram batizadas. A neonatóloga e neurobióloga do desenvolvimento Anna Penn, pesquisadora da Universidade Stanford, denominou esses estudos de “neuroplacentologia”. A própria Anna está estudando o impacto dos hormônios placentários no desenvolvimento do cérebro depois da 20a semana de gestação. Seu objetivo é identificar com que idade os bebês prematuros são afetados pela perda desses hormônios e, ainda, descobrir uma forma de compensar esse déficit.