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Arroz para combater o individualismo

Práticas agrícolas históricas influenciam mentalidades modernas

janeiro de 2015
Cristal Tran/Shutterstock

Muitos associam de imediato a cultura chinesa à rivalidade entre o leste e o oeste daquele país. Agora, uma pesquisa conjunta entre Estados Unidos e China indica que os moradores do norte apresentam uma mentalidade mais individualista, como a americana, em comparação com seus compatriotas do sul. E o arroz é fator determinante dessa diferença, de acordo com artigo publicado na revista Science.

“O rio Yangtze separa a China em norte e sul e serve também de divisor agrícola e cultural”, diz o psicólogo Thomas Talhelm, da Universidade de Virgínia, principal autor do estudo. Habitantes do norte cultivam predominantemente o trigo, e os do sul o arroz. Essa última atividade é bastante trabalhosa e necessita de água o tempo todo, o que exige a partilha de recursos para que seja bem-sucedida. As comunidades ajudam a plantar e a regar. Já o trabalho com trigo requer metade do esforço e depende mais dos padrões de chuva, por isso pode ser gerenciado com menor dependência dos vizinhos.

Talhelm se perguntou se as práticas agrícolas poderiam ajudar a explicar a mentalidade mais individualista do lado ocidental, comparadas com a forma mais abrangente de raciocinar dos habitantes da região oriental. Para investigar a “teoria do arroz”, a equipe de cientistas analisou o pensamento holístico, a preocupação com o bem da maioria e a lealdade de 1.162 estudantes de 28 províncias da China. Como esperado, os pesquisadores comprovaram que essas qualidades estavam mais presentes nas províncias de cultivo de arroz, enquanto o individualismo era mais comum nas áreas em que os moradores trabalhavam com trigo. 

Os cientistas analisaram também as taxas de divórcio de cada província, outro indicador do pensamento autocentrado. “O número de separações entre casais nas regiões de trigo era 50% maior do que nas áreas de arroz”, aponta Talhelm. “Embora outras variáveis possam ser consideradas, a teoria está de acordo com outras pesquisas culturais sobre como a atividade agrícola influencia o pensamento”, diz o psicólogo Richard Nisbett, professor da Universidade de Michigan, que não participou do estudo. 

Na Turquia, por exemplo, Nisbett descobriu que os que se dedicavam à agricultura (ocupação interdependente) eram muito mais altruístas do que os que viviam do pastoreio (atividade independente). Os resultados reforçam nossa crescente compreensão de que a história agrícola de uma região pode ter influência duradoura sobre a mentalidade de seus cidadãos modernos. 

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