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Arte e histeria na obra de Clarice Lispector

Mostra Útero do mundo, em São Paulo, busca inspiração no trabalho da escritora para tratar das relações entre corpo e emoção 

dezembro de 2016

Desenho Mulheres, de Flávio de Carvalho

Considerada pela comunidade médica do fim do século 19 uma doença tipicamente feminina, com provável origem em alterações no sistema reprodutivo, a histeria intrigava por seus sintomas: paralisias, náuseas, convulsões, ansiedade extrema, entre outros, porém sem causa orgânica aparente. A experiência no atendimento a pacientes com esse quadro, aliás, está na base da teoria do inconsciente, proposta por Sigmund Freud. Para ele, a histeria seria a expressão física de dores psíquicas, tratáveis por meio de uma investigação das origens inconscientes do sofrimento. Nascia assim o método psicanalítico, baseado na complexa relação entre linguagem e inconsciente. A noção de que “o corpo fala” norteia a mostra Útero do mundo, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), que reúne 280 obras de120 artistas contemporâneos – pinturas, fotografias, esculturas, performance em vídeo – que retratam o corpo como palco de expressão das emoções. 

O título da exposição remete à antiga abordagem médica  da histeria e à obra de Clarice Lispector, conhecida por criar personagens mulheres psicologicamente densas. A iniciativa de relacionar histeria, artes plásticas e literatura foi da escritora e crítica de arte Veronica Stigger, que selecionou as obras entre milhares pertencentes ao acervo do MAM. Entre os textos de Clarice tomados como referência está Água viva, de 1973, ficção em formato de fluxo de consciência sobre uma pintora que reflete sobre suas emoções cotidianas, imagens que surgem em sonhos e o medo da morte. 

Os trabalhos estão organizados em três grupos, nomeados com expressões retiradas de romances e ensaios de Clarice: Grito ancestral, Montagem humana e Vida primária. Primeiro núcleo da mostra, Grito ancestral traz trabalhos que representam “o som anterior à fala e que expressa o que há de indomável em nós”, nas palavras da curadora. Entre os destaques, os autorretratos da série Demônios, espelhos e máscaras celestiais, de Arthur Omar, que demonstram estados alterados de percepção e exaltação, e a série Aaaa..., de Mira Schendel, que apresenta uma escrita desarticulada que evoca o balbucio da infância e o estado ancestral de não existência da linguagem.

Montagem humana traz corpos fragmentados e indefinidos, como as pinturas e os desenhos da série Mulheres, de Flávio de Carvalho, que retratam silhuetas femininas em convulsão, posições sexuais e atitudes melancólicas. O terceiro grupo, Vida primária, aborda o corpo orgânico. A vagina, a entrada para o útero, é mostrada em diversos trabalhos, como nas fotografias da série Vulvas, de Paula Trope, e no desenho Miss Brasil 1965, de Farnese de Andrade. Nessa linha se destaca também a fotografia Umbigo da minha mãe, de Vilma Slomp.

Útero do mundo.
Museu de Arte Moderna de São Paulo. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, Parque Ibirapuera, São Paulo.
De terça a domingo e feriados, das 10h às 18h. Informações: (11) 5085-1140.
R$ 6 (grátis aos domingos). Até 18 de dezembro.

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