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As distorções da memória

Mulher perde a capacidade de evocar fatos recentes e fica presa à visão de mundo do marido

março de 2011
dalton valério
Fisicamente, vivemos o momento presente. Mas não raro nossos pensamentos estão voltados para o que passou ou para o amanhã: é esse “arquivo de lembranças” que nos desperta, por exemplo, a vontade de encontrar uma pessoa querida ou de evitar alguém que nos causou algum tipo de sofrimento. A falta desse arquivo nos deixaria, portanto, perdidos e indefesos – é esse o drama vivido por Meg, protagonista da peça Savana glacial, com apresentações agendadas em Brasília e Porto Alegre. O espetáculo traz uma interessante abordagem sobre a memória: a de que acontecimentos são assimilados e distorcidos de acordo com a história pessoal de cada um.


Meg sofre de perda de memória recente, sequela de um acidente de carro. Ela passa os dias sem sair do pequeno apartamento em que vive com o marido, o escritor Michel, que, sob o pretexto de garantir “uma vida tranquila e sem sobressaltos” à mulher, não permite que ela atenda ao telefone ou conheça pessoas sem a sua presença. Na tentativa de não esquecer, Meg anota em uma caderneta fatos banais de seu cotidiano e o que observa sobre as pessoas que batem à sua porta. Uma delas é a misteriosa vizinha Agatha, que desempenha um papel duplo na vida do casal: ao mesmo tempo que faz intrigas, tenta convencer a protagonista a se libertar da influência controladora do marido. No ar, fica a sugestão de uma traição amorosa, por vezes nítida, por vezes vaga. “A estrutura da peça é fragmentada, como a mente do personagem central”, diz o autor do texto, Jô Bilac.


Refém das lembranças alheias, Meg tenta distinguir o que é realidade do que é pura imaginação de seu marido escritor, até que a presença de um entregador no apartamento do casal desencadeia flashbacks de eventos dolorosos que haviam sido esquecidos. O resultado é um quebra-cabeça de memórias que se contradizem. “A verdade de Meg existe pela confiança no marido. Quando esse alicerce é questionado, as angústias adormecidas começam a vir à tona”, comenta a intérprete da personagem, a atriz Andreza Bittencourt.