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As relações entre autismo, epilepsia e maconha

O desequilíbrio do sistema endocanabinoide do cérebro está envolvido na neurobiologia de várias doenças e transtornos

agosto de 2014
Fernanda Teixeira Ribeiro
Shutterstock
Em 2013, a CNN divulgou o caso de uma menina de 7 anos diagnosticada com síndrome de Dravet, uma epilepsia muito severa, que não raro surge acompanhada de autismo. Ela obteve uma melhora evidente depois de começar a ser tratada com o extrato de uma variedade de Cannabis sativa em canabidiol (CBD), componente da planta que tem, entre outras propriedades, efeitos anticonvulsivantes. Charlotte Figi, que sofria mais de 300 crises convulsivas por mês, passou a ter apenas duas. Além do controle das convulsões, a menina apresentou algumas melhoras de sintomas associados ao autismo: passou a manter contato visual com os pais e deixou de ter comportamentos como autoflagelação e ataques de agressividade.

Diversas síndromes epiléticas, como a síndrome de Dravet, têm alta prevalência de autismo. Também entre pessoas diagnosticadas com autismo, são comuns convulsões: cerca de um terço dos diagnosticados tem crises convulsivas. Estimativas sobre a quantidade de autistas que também têm epilepsia variam de 5% a 46% – note-se que a variação nos dados é alta, mas mesmo a estatística mais baixa é maior que a prevalência de epilepsia na população geral, que é de 1%. Mas os cientistas estão apenas começando a formular hipóteses sobre as origens biológicas dessa comorbidade.

“Tempestades elétricas que ocorrem no cérebro” é uma metáfora comum para descrever crises epiléticas. Gráficos de eletroencefalografia (EEG), técnica em que eletrodos ajustados sobre o couro cabeludo registram padrões de onda entre grandes grupos de neurônios, mostram um padrão rítmico anormal de ondas e picos ao longo de muitos segundos durante convulsões. Não é simples diagnosticar a epilepsia. Há casos em que não há convulsões – a síndrome pode, por exemplo, se manifestar em crises de ausência, especialmente em crianças. O diagnóstico é ainda mais complicado se autismo e epilepsia se reúnem. Olhar vazio, desatenção e tiques motores são sintomas comuns a ambos.

É possível que existam genes comuns ao autismo e à epilepsia, muitos deles envolvidos na regulação das sinapses, as conexões entre os neurônios. Alguns cientistas consideram que defeitos em sinapses poderiam causar desequilíbrio de sinais excitatórios e inibitórios no cérebro, o que levaria ao autismo, à epilepsia ou a ambos.

Autismo e endocanabinoides

Uma das hipóteses mais aceitas sobre a causa de autismo é que a interação entre neuroliginas e neurexinas (proteínas pré-sinápticas) – crucial para o equilíbrio da transmissão de sinais excitatórios e inibitórios entre neurônios – funciona de forma alterada por causa de mutações em ambas as proteínas. Um estudo publicado na Neuron em 2013 relaciona mutações específicas nas neuroliginas (moléculas de adesão celular pós-sinápticas) a alterações na sinalização endocanabinoide em ratos.

O fisiologista celular Thomas Südhof, da Universidade Stanford, e seus colegas selecionaram roedores com cada uma das mutações e fizeram registros eletrofisiológicos das interações entre pares de células em áreas do hipocampo do cérebro dos animais. Observaram um aspecto em comum: um tipo de célula contendo receptores canabinoides tipo-1 (CB1) mostrou alterações similares em seus padrões de excitação em ambas as mutações. Porém, o mecanismo que faz com que mutações em neuroliginas causem déficits de sinalização endocanabinoide ainda não é esclarecido.

O sistema endocanabinoide é um grupo de receptores envolvidos em vários processos importantes, como percepção de dor, memória, emoções, coordenação de movimentos e outros. E esses receptores respondem aos fitocanabinoides presentes na Cannabis sativa, a maconha. “Em maior ou menor grau, defeitos no sistema endocanabinoide estão envolvidos na etiologia de diversas doenças e transtornos, como epilepsia e autismo”, diz o neurocientista Renato Malcher-Lopes, professor da Universidade de Brasília (UNB), em entrevista à Mente e Cérebro.

Ainda são necessários estudos que esclareçam a relação entre alterações no sistema endocanabinoide e autismo. Mas o crescente número de relatos de médicos e pais de crianças com sintomas severos tanto de epilepsia como de autismo que apresentam melhoras quando tratadas com cannabis medicinal leva a crer que, no futuro, substâncias derivadas da planta venham a ser opção segura para o controle de sintomas em ambos os casos.

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