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Asas do desejo e da fantasia

dezembro de 2008
ILUSTRAÇÃO DE ROGÉRIO COELHO/DIVULGAÇÃO
Sentado na laje da casa, no alto de um morro carioca, Pedro aguarda a mãe chegar do trabalho para lhe fazer um pedido: uma pipa nova em substituição à que o valentão Buiú lhe roubou no cerol. Enquanto espera ansioso, observa de longe as janelas iluminadas, limpíssimas, mas sempre vazias dos prédios da cidade. “Pra que limpar tanto, se ninguém olha pela janela?”, pergunta o garoto. “Se eu morasse num predião desse tamanho e tivesse uma janelona brilhante que nem essas, só ia querer saber de ficar olhando nela”, reflete.

A mãe de Pedro é faxineira e nem sempre está de bom humor. Nesse dia, não foi diferente. Tendo rasgado a meia finíssima da patroa, chega do trabalho de cabeça quente. Resultado: o pedido do menino é recebido por ela com xingamentos e uns cascudos. Esse é o ponto de partida do livro A pipa preta (Edições SM), de Cristiane Dantas, com ilustrações de Rogério Coelho.

Será a figura aconchegante da avó que abrirá para Pedro outras janelas para o mundo, levando-o a uma trajetória simbólica, que lhe possibilitará ganhar confiança em si mesmo e, ao mesmo tempo, elaborar as diferenças psicossociais, a impaciência materna, a tirania e os conflitos com meninos mais velhos. E mais: os dilemas éticos com os quais somos obrigados a lidar desde a infância durante a construção do senso moral – processo que se inicia aos 4 anos e que nos confronta com as agruras do dever versus querer.

O veículo de tal transformação subjetiva, rumo ao amadurecimento, é a pipa preta, simbolicamente feita com o papel de seda que envolvia a meia furada – resto descartado do objeto de consumo e ao mesmo tempo representação da mãe. A pipa não só voa, como leva o menino com ela em uma incrível viagem onírica, na qual ele experimenta devaneios da infância idealizada, vê-se obrigado a encontrar soluções para os próprios problemas, até voltar autoconfiante para enfrentar os desafios cotidianos. A pipa preta, ao se tornar condutora do desejo, lhe permite penetrar a janela da imaginação e ali construir um refúgio subjetivo seguro, passível de novos enredos e montagens simbólicas.