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02 de março de 2012
Atendimento psicanalítico de crianças
Antes de iniciar a análise é fundamental que o profissional compreenda o que de fato a família está solicitando ao analista
 
dedMazay ©shutterstock
por Adela Stoppel de Gueller

O fato de a criança não vir sozinha ao consultório pedir análise não é um mero incidente, mas um elemento estrutural que deve ser levado em consideração nesse tipo de atendimento. Por isso, é fundamental analisar, em cada caso, quem pede e o que pede aquele que demanda um tratamento em nome da criança. Aqueles que fazem essa solicitação geralmente são os pais (ou um deles), mas é também muito frequente que venha da escola, do médico ou ainda do abrigo onde a criança vive ou do Conselho Tutelar. O termo “demanda” foi introduzido como conceito na psicanálise por Jacques Lacan e, a partir daí, tornou-se frequente utilizá-lo para avaliar a possibilidade de iniciar um tratamento. Em francês, demande significa “pedido”, mas também “pergunta”; por isso, podemos dizer que o surgimento de uma indagação sobre o sofrimento psíquico é o que tomamos como indicador desse movimento de busca de análise.

Quando os adultos procuram tratamento para si mesmos, eles falam, explicam, detalham sua história, fazem piadas e usam metáforas – elementos que faltam à fala da criança. Os pequenos brincam, e é nesse brincar que lemos seu dizer e os empecilhos que encontram para fazê-lo. Mas será que a criança quer saber aquilo que diz? E, ainda, será que a infância é o tempo de se apropriar desse saber? Essas questões surgem ao pensarmos em tomar uma criança em análise. É isso que queremos saber quando perguntamos se a criança tem um demanda própria de tratamento.

Talvez a psicanalista Melanie Klein não tenha formulado esse tipo de questão por ter partido do pressuposto de que todas as crianças poderiam se beneficiar do processo terapêutico. Anna Freud levantou questões semelhantes e, por esse motivo, pensava que seria essencial haver um tempo de trabalho preliminar para que a criança tomasse consciência de sua enfermidade. Só então ela saberia se o tratamento poderia beneficiá-la e de que forma. Como estamos hoje, passados 80 anos do início dessa discussão entre as duas grandes mães da análise de crianças? Consideramos que a criança pode constituir um discurso próprio, que ela tem autonomia para demandar uma análise em seu próprio nome? Uma criança pode se perguntar sobre o que não vai bem com ela, indo além dos questionamentos e da autorização de seus pais ou responsáveis? Frequentemente, a criança e seus pais não chegam com uma pergunta ou demanda específica de análise, mas com pedidos e queixas que têm outra estrutura. O trabalho preliminar consiste, então, em viabilizar a constituição de uma demanda analítica.

O paciente precisa acreditar que vai encontrar na análise resposta para seu sofrimento. O analista sustenta sua intervenção pela convicção de que o inconsciente – esse Outro que vive em nós, ao mesmo tempo íntimo e completamente alheio, que o sujeito não domina – tem um saber e, para acessá-lo, é preciso deixar o Outro falar. Lacan chamou essa função de “sujeito suposto saber” (S.s.S.). Se aquele que consulta pode supor um saber do Outro sobre seu sofrimento e suporta não ouvir uma resposta imediata, o analista passará a fazer parte do campo no qual a pessoa se faz ouvir e, assim, poderá participar da configuração desse campo. O terapeuta passa então a fazer parte do sintoma. Freud denominava essa criação artificial de neurose de transferência. Como a criança ainda se remete ao Outro e o identifica com sujeitos que reconhece como distintos dela e dos quais depende, a “não resposta” do adulto – que pode ser o silêncio, a ocultação, a mistificação ou a ignorância – a quem ela endereça uma pergunta produz sintomas, inibições, somatizações ou uma queda livre sem fim.

Ao não encontrar resposta, a criança perde as referências simbólicas que lhe permitem continuar pensando, e são produzidos entraves em sua constituição. Por isso, podemos situar o lugar do analista de crianças como um ponto de teatro. Ele não tem o roteiro em mãos, mas está atento às interrupções da fala. A resposta do adulto não precisa ser uma explicação exaustiva. Em alguns casos, é suficiente um gestode reconhecimento e validação da pergunta da criança. O que fica difícil para ela é a não resposta ou que o adulto ignore a pergunta que lhe foi endereçada, porque, assim, ela não se sente reconhecida como sujeito. Cabe ao analista “recolher” a pergunta da criança e colocá-la novamente em circulação. Possibilitar que os pais sejam interlocutores do filho (ou voltem a sê-lo) é a principal função do analista que trabalha com a criança e sua família. E, quando isso não é possível, tentamos fazer com que a criança restabeleça a confiança no Outro, único modo de ela acreditar que vale a pena falar. Como diz o psicanalista José Attal, com as crianças o S.s.S. toma muitas vezes a forma de um “sujeito suposto adivinhar”. Segundo ele, isso se deve “ao fato de a criança estar num momento de recalque”, mas também podemos acrescentarque o pensamento mágico e onipotente, próprio
do narcisismo, é predominante na infância.

A oferta do psicanalista é sua escuta, o que implica não responder à demanda de imediato. Só assim é possível transformar a urgência daquilo que se apresenta como uma necessidade vital numa demanda/pergunta que deixa um resto sempre faltante a que chamamos desejo. As crianças têm perguntas que pedem respostas. É tarefa do analista acolhê-las durante o tempo necessário para que os pais possam estar ou voltar a estar em condições de continuar uma interlocução fecunda com os filhos.