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Ciclos de atitudes egoístas se formam mais facilmente que correntes do bem

"Pagamos na mesma moeda" quando nos sentimos lesados, mas o mesmo não vale para atos generosos

julho de 2014
Michael I. Norton
Alberto Ruggieri/Illustration Works/Getty Images (ilustração); Picsfive/Shutterstock (papel); Arte de João simões
Não é raro ouvir casos de pessoas comuns que decidem criar correntes do bem. Uma vez vi acontecer na estrada: um motorista decidiu pagar o pedágio para o próximo da fila, que fez o mesmo com o de trás e assim por diante. Bom de ver. Recentemente, na véspera de Natal, mais de mil clientes de uma loja Starbucks, em Connecticut, concordaram em pagar a conta de outro. A atitude inspirou muita gente, que decidiu repetir a dose em lavanderias, lanchonetes e lava-rápidos em várias cidades dos Estados Unidos. Há boas razões para acreditar que esses atos de bondade casuais sejam comuns, a ponto de chamar a atenção de pesquisadores que buscam entender os mecanismos pelos quais a generosidade nos torna mais felizes e saudáveis.

No entanto, qualquer um que tenha experimentado a gentileza de estranhos provavelmente também já se sentiu ultrajado por outros tantos, seja por um motorista que não respeitou o trânsito ou um mal-educado que cortou a fila no banco. Infelizmente, a pesquisa que conduzi sugere que temos maior propensão a criar ciclos de ganância do que círculos de ações que nos movem para estender a mão ao próximo.

Duvida? Muito bem, imagine a seguinte situação: você é informado de que alguém recebeu US$ 6 e deverá lhe dar uma parte, mantendo o resto para si. Mas, na hora de verificar o envelope com a quantia, percebe que não lhe deixaram nada. Nem um centavo sequer. Pense como se sentiria e que palavras usaria para descrever essa pessoa.

gora, considere que foi você quem recebeu US$ 6 e deve doar uma parte para um terceiro, guardando o restante para si. Quanto colocaria no envelope? Com isso em mente, imagine outro cenário. E se o participante anterior tivesse ofertado a quantia total? Ou entregue metade para cada um? Como isso afetaria seu comportamento?

Eu e meus colegas, os psicólogos Kurt Gray, da Universidade da Carolina do Norte, Chapel Hill, e Adrian F. Ward, da Universidade do Colorado em Boulder, submetemos centenas de voluntários a uma das três situações (que denominamos ganância, generosidade ou justiça) e os resultados não foram muito animadores. Mas, antes, vamos à boa notícia. Como descrevemos em um artigo científico que deve ser publicado ainda este ano, descobrimos que os participantes que se sentiram tratados com justiça foram mais propensos a agir da mesma forma com outros. Aqueles que receberam metade da quantia passaram 50% para a frente em sua vez de escolher. Porém, os voluntários que ganharam o valor integral não retribuíram com a mesma generosidade: em média, estavam dispostos a doar apenas metade, o que revela que tendemos a nos comportar apenas de maneira equitativa.

A má notícia é que aqueles que foram afetados pela ganância do outro foram mais propensos a “pagar na mesma moeda”, ofertando ao próximo pouco mais de US$ 1, em média. Ou seja: comportamentos egoístas parecem nos marcar mais do que atitudes generosas.

Para saber mais sobre o tema, confira o Especial Ética, da Mente e Cérebro n. 258, nas bancas e na Loja Segmento.

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