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Atividade física atenua risco genético de Alzheimer

A prática regular de exercícios é capaz de interferir no metabolismo cerebral e retardar o avanço da demência em pessoas com o gene APOE e4, relacionado à maior predisposição para a doença

novembro de 2014
Tom Wang/Shutterstock

Mudanças simples no estilo de vida podem reduzir consideravelmente o risco de Alzheimer em pessoas com predisposição genética. Pessoas com um gene conhecido como APOE e4 têm comprovadamente maior risco de sofrer perdas cognitivas e demência depois dos 60 anos. Mesmo antes que os sintomas surjam, seu cérebro já apresenta metabolismo reduzido, atividade alterada e maior deterioração do que de indivíduos sem esse gene. Cada vez mais estudos estão mostrando que ter o gene não é necessariamente uma sentença para desenvolver a doença, principalmente se essa predisposição for contrabalançada com a prática regular de atividade física.

Exercícios são capazes de evitar o declínio cognitivo. Vários trabalhos divulgados na última década mostram que seus benefícios são ainda mais evidentes em pessoas com alto risco genético para o Alzheimer. Dois estudos feitos em parceria entre universidades da Finlândia e da Suécia descobriram que se exercitar ao menos duas vezes na semana na meia-idade retarda a chance de desenvolver demência em até 20 anos. Efeito protetor muito mais claro em pessoas com o gene APOE e4. Outros trabalhos concluíram que a atividade física frequente (um mínimo de três vezes na semana, de acordo com alguns estudos ou mais de uma hora por dia, segundo outros) pode retardar o declínio cognitivo apenas naqueles que carregam o gene. Além disso, no caso daqueles que têm o APOE e4, o sedentarismo está associado com o aumento de acumulação da proteína tóxica beta-amiloide, um marcador biológico do Alzheimer.

Dois estudos, um publicado no Alzheimer’s & Dementia em 2012 e outro na Neuroimage em 2011, mostram que pessoas com alto risco genético para a doença que se exercitam apresentam maior atividade cerebral durante testes de memória em comparação a pares sedentários ou com baixo risco genético. Essa relação com o metabolismo pode ser uma das explicações sobre o potencial protetor dos exercícios para pessoas com o APOE e4. Uma teoria proposta por dois pesquisadores da Universidade do Arizona, o antropólogo David Raichlen e o psicólogo Gene Alexander, sugere que a resposta para essa relação está em nosso passado evolutivo. Dois milhões de anos atrás, quando nossos ancestrais eram muito mais ativos fisicamente – por exemplo, corriam longas distâncias para caçar uma presa –, existia apenas a variante de alto risco: um gene que simultaneamente permitia um metabolismo mais eficiente durante a atividade intensa, mas que implicava declínio cognitivo mais rápido – o que era contrabalançado pela vida ativa de nossos ancestrais. Como seres humanos desenvolveram hábitos mais sedentários ao longo do tempo, surgiram outras variantes do gene. Hoje, estamos vendo mais frequentemente o efeito negativo do gene de alto risco. 

Se por um lado há estudos que fazem uma associação nítida entre o efeito protetor dos exercícios e a presença do gene APOE e4, outras descobertas mostram que a interação entre genes e fatores ambientais pode ser mais complexa do se imagina. Um estudo em larga escala, por exemplo, relacionou altos níveis de atividade de lazer ao retardamento do aparecimento de sintomas de demência em cinco anos – mas apenas em pessoas que não carregavam o APOE e4.

Atividade física é importante para um envelhecimento saudável, independentemente da genética. No entanto, enfatiza Raichlen, “é preciso evidenciar a importância de manter atividade física por toda a vida para pessoas que têm o gene APOE e4”. Para o antropólogo, “uma melhor compreensão das origens evolucionárias das interações entre genótipo e estilo de vida ajudará a identificar populações que particularmente se beneficiarão com mudanças comportamentais”

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