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Atores encenam conflitos em ruas do centro de São Paulo

Espaços urbanos se transformam em cenários para crítica ao consumismo e às relações de poder

novembro de 2012
Erane Paladino
© DIvulgação
Com mais de 20 anos de tradição, o grupo Teatro da Vertigem aposta mais uma vez no espaço urbano como campo de experimentação cênica. O lugar escolhido foi o Bom Retiro, bairro do centro velho de São Paulo. Antigo reduto de imigrantes judeus e italianos, tornou-se polo de confecções e lojas voltadas à moda de baixo custo. Durante o dia, a famosa Rua José Paulino e seus arredores fervilham. Empresários – em sua maioria de origem coreana – substituíram os antigos moradores e contratam mão de obra de bolivianos para o exaustivo trabalho nas intermitentes máquinas de costura. Mas à noite o local se transforma. Fábricas desativadas, prédios malcuidados e ruas vazias passam a ser cenário de tramas para o público que percorre a região durante duas horas, com direito a entrar em um shopping fechado, até chegar aos porões de um teatro abandonado. São abordadas questões como idealização, voracidade, consumismo e relações de poder. 

Personagens como costureiras exploradas e um morador de rua dependente de crack apontam paradoxos associados a valores sociais, num contraponto à sacoleira obcecada por um simbólico vestido vermelho. Em tom de ironia e crítica ao show business são apresentados inusitados musicais protagonizados por mendigos e pela faxineira do shopping. O discurso deixa subjacentes considerações teóricas associadas aos pensadores críticos do capitalismo. A consumidora enfeitiçada evoca o conceito de Karl Marx do fetiche da mercadoria, segundo o qual o objeto ganha força e vida sobre o sujeito fascinado pelo produto. Para os que não têm acesso ao que desejam consumir pode ser considerado outro tipo de entorpecimento, lembrado por Michel Foucault ao tratar da exclusão social. 

Embora o texto recorra a clichês, o que em alguns momentos distancia o público de uma comunicação mais tocante, a produção esmerada, original e criativa gera impacto pela intensidade de imagens entrecortadas, como num grande e inusitado videoclipe a céu aberto. Ficam em evidência os movimentos cênicos performáticos com jogos de luz, sons e cores e cenas que se entrelaçam de forma sutil. Se por um lado falta dramaturgia mais densa, com personagens construídos de forma consistente, por outro é irrecusável o convite à inusitada experiência de vagar por uma espécie de submundo, que evoca realidades instigantes, quase oníricas. (07-11-2012).