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Atrofia oculta

julho de 2007
Agência Fapesp
O estudo usou imagens pré-operatórias: em azul, áreas de atrofia dos pacientes curados pela cirurgia. Em vermelho, áreas de atrofia daqueles que permaneceram com crises após a intervenção
(Agência Fapesp) – A forma mais freqüente da epilepsia está ligada a uma atrofia na substância cinzenta do lobo temporal. Nos casos de difícil controle por medicamentos, os pacientes são submetidos a uma cirurgia na região cerebral afetada. Mas um dado intriga os cientistas: cerca de 30% das operações não surtem efeito e as convulsões continuam.

Estaria a eficiência da cirurgia relacionada à existência de áreas específicas de atrofia da substância cinzenta? Para responder a esta pergunta, seria preciso estudar os exames de ressonância magnética de pacientes antes da intervenção cirúrgica.

Foi exatamente o que fez a pesquisadora Clarisse Yasuda, doutoranda do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Pelo estudo, Clarice recebeu, na semana passada, o Prêmio Jovem Pesquisador, durante o 27º Congresso Internacional de Epilepsia, em Cingapura. Oito trabalhos foram selecionados entre mais de 800 de todo o mundo.

“Os resultados mostraram que os pacientes cujas crises cessaram depois da cirurgia apresentavam áreas de atrofia mais restritas ao lobo temporal afetado. Nos outros, refratários à operação, a atrofia se estendia a regiões fora do lobo temporal afetado, inclusivo no outro hemisfério cerebral”, disse Clarisse.
De acordo com a pesquisadora, a idéia central do trabalho – que é apenas parte de sua tese – foi bastante simples, mas inédita. Se for possível identificar com antecedência os casos em que a cirurgia não surtirá efeito, os médicos poderão poupar pacientes das intervenções invasivas.

“Imaginei que deveria haver alguma alteração no cérebro antes da operação e, de fato, havia. Pudemos concluir que o sucesso da cirurgia de epilepsia não depende só da técnica cirúrgica. Agora, será preciso estudar com mais profundidade os outros fatores que podem interferir no resultado da cirurgia”, destacou.

Para fazer o trabalho, Clarisse selecionou o exame de ressonância magnética cerebral pré-operatório de 70 pacientes com epilepsia. Utilizando a técnica de VBM – morfometria baseada em voxels, que permite a separação e quantificação das substâncias branca e cinzenta das imagens –, a pesquisadora identificou áreas de atrofia cortical relacionadas ao controle das crises epilépticas após a cirurgia.

“A técnica permite quantificar, nas imagens cerebrais, o que corresponde à substância branca e à substância cinzenta. Ao identificar as áreas de atrofia, pudemos comparar sua distribuição entre o grupo que teve sucesso na cirurgia e o grupo refratário”, explicou.

Segundo a pesquisadora, o grupo que continuou com crises epiléticas após a cirurgia apresentou alterações invisíveis a olho nu, mas que são identificáveis com uma análise matemática complexa.

“A idéia agora precisa ser mais aprofundada, para que possamos descobrir fatores prognósticos e poupar da cirurgia aqueles que soubermos de antemão que não serão beneficiados. É o começo de um longo estudo”, afirmou.