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Bichos soltos da mente

Povoado por animais e meórias ancestrais, o trabalho de Wilma Martins, em exposição no Rio de Janeiro, evoca conceitos junguianos

fevereiro de 2014
Coleção da artista. Fotos: Wilton Montenegro
O Retono. Xilogravura. 100x62cm. 1968
Um dos conceitos básicos da psicologia analítica, fundada por Carl Jung, é o de inconsciente coletivo. Esse conceito parte da ideia de que o psiquismo abriga memórias das gerações anteriores: como se fosse um arquivo que guarda experiências primordiais ou adquiridas ao longo da evolução – tanto da espécie humana como de ancestrais animais. Essas impressões mentais não conscientes se expressam, por exemplo, nos sonhos, nos mitos, na arte.

Delicado, porém intenso, como a linguagem onírica, o trabalho da mineira Wilma Martins evoca a perspectiva junguiana de que a mente herda e carrega medos, fantasias e anseios ancestrais. Considerada uma das maiores gravuristas do Brasil, a artista de 80 anos recebe uma retrospectiva com o sugestivo título Cotidiano e sonho, no Paço Imperial, no Rio de Janeiro.

São 140 obras, entre xilogravuras, pinturas, desenhos. Talvez a mais conhecida, a série Cotidiano retrata a fantástica invasão de animais em cômodos que reproduzem exatamente a sala, os quartos de dormir, o escritório, a cozinha e o banheiro do apartamento em que viveu com o marido no Rio de Janeiro, antes de se mudarem para uma casa protegida por árvores no bairro de Santa Tereza.

Introspectiva e de vida reclusa desde os tempos de adolescência no interior de Minas Gerais, Wilma sai pouco de casa e passa os dias desenhando, costurando e cuidando do jardim. Ela define a presença dos bichos nas estáticas e pacíficas cenas caseiras como um prisioneiro, um visitante ou anjo exterminador que irá transformar aquele espaço e a rotina do cotidiano.

Outras obras, com figuras que lembram seres ancestrais, remetem à sucessão de gerações, como O retorno. Como descreveu o crítico de arte Clarival Valladares, Wilma “é uma paisagista do mundo interior, do infinito cosmo da alma, das origens ao incógnito, usando uma linguagem ao mesmo tempo remota e muito atual”.

Cotidiano e sonho. Paço Imperial. Praça XV de Novembro, 48, Centro, Rio de Janeiro. Terça a domingo, 12 h às 18 h. Informações: (21) 2215-2622. Grátis. Até 20 de fevereiro.