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Brincando de Deus

Em seu filme mais recente, Wood Allen retoma temas como ética, moralidade e capacidade de julgar, com toques de Kant e outros filósofos

outubro de 2015
Gláucia Leal
DIVULGAÇÃO

Há milênios o ser humano tenta definir o certo e o errado. Ao longo da história, muitos pensadores trataram o tema sob ópticas variadas. Quando nos confrontamos com situações em que é possível (ou necessário) fazer escolhas com implicações éticas, vêm à tona nossas prioridades – e, em geral, elas costumam revelar mais que nossas palavras ou construções teóricas. O último filme de Woody Allen, Homem irracional, com Joaquin Phoenix, no papel do protagonista Abe, traz temas como moralidade, capacidade de julgamento e escolha e finitude. Os temas, frequentes na obra do cineasta de 79 anos, esteve presente em outros trabalhos seus, como Crimes e pecados (1989), Um misterioso assassinato em Manhattan (1993) e Match point (2005), o que fez com que vários críticos torcessem o nariz para o lançamento, alegando a “repetição do mesmo”. Preferências à parte, Homem irracional abre espaço para reflexões.

Na trama, um professor de filosofia de meia-idade com fama de sedutor e vários relacionamentos extraconjugais no currículo, vive o luto da separação da mulher, que também o traiu. Sua fama o antecede quando é chamado para lecionar numa pequena universidade; alunas e professoras da instituição têm fantasias com o intelectual, que escreveu livros polêmicos. Quem chega para morar na pequena casa oferecida a ele no campus da universidade, porém, é um homem desiludido, desesperançado e impotente.

O clichê do professor brilhante que se aproxima da universitária, jovem e promissora, se repete. Jill, a personagem vivida por Emma Stone, aos poucos se dá conta da paixão pelo professor e se depara com a decisão de terminar o namoro aparentemente com um “bom rapaz”, ideal para ela, na opinião de parentes e amigos. Até aí nenhuma novidade.

A história muda de figura quando aluna e professor ouvem a conversa de pessoas desconhecidas numa lanchonete. Um juiz de caráter duvidoso está prestes a prejudicar uma mãe amorosa que luta na justiça pela guarda dos filhos, mas deve perder a causa, não por falta de mérito ou em benefício do bem das crianças, mas porque aquele que deve proferir a sentença dará preferência a interesses pessoais. Urge para fulano, então, a questão: o juiz é tão nefasto, por que não matá-lo simplesmente?

A partir daí ele se empenha em executar o crime perfeito. A possibilidade de intervir para fazer o bem a essa mãe aflita, funciona como um sopro de vida para Abe. Ele se sente forte e recupera a potência. Deixa de lado, porém, ideias fundamentais: não há uma única realidade e a perfeição está nos olhos de quem a idealiza. Os desdobramentos de seus atos se mostram imprevisíveis. A fantasia narcísica de que é possível dispor da vida alheia sem que as causas e condições criadas retornem de forma incontrolável se mostra inconsistente. As consequências são incontroláveis e exigem novas escolhas, que demandam renúncias, sacrifícios. Uma pergunta que permeia Homem irracional é: até onde podemos ir?

O italiano Nicolau Maquiavel, autor de O príncipe, uma espécie de “manual para governantes”, argumenta que o que conta são os fins e não os meios que usamos para chegar até eles. Já o filósofo Immanuel Kant não aceita a hipótese de uma moralidade baseada em resultados. Para ele, não deve haver exceções: se você acredita que é errado mentir, por exemplo, jamais deveria contar nenhuma mentirinha, por mais leve que fosse ou ainda que fosse usada para salvar vidas.

Hanna Arendt afirma que a capacidade de assumir o ponto de vista do outro vai além da mera possibilidade de engajamento com o diálogo público e racional, ou da coragem de submeter-se à opinião alheia. Para ela, a faculdade de julgar particularidades, tal como foi revelada por Kant, a habilidade de discriminar o bom e o mau, o belo e o feio não é igual à habilidade de pensar. O pensamento lida com aspectos invisíveis, com representações de coisas que estão ausentes, ou seja, requer que haja simbolização. Já o juízo se ocupa daquilo que está ao alcance da compreensão mais imediata, mas que, por sua vez, se apoia na subjetividade, naquilo que se constituiu a partir do que foi vivenciado.

Friedrich Nietzsche propõe pensarmos “para além do bem e do mal”. Escreve: “Pergunte aos escravos ‘quem é o mau’, e eles apontarão o personagem que a moral aristocrática considera ‘bom’, isto é, o poderoso, o dominador”. O filósofo alemão faz uma colocação muito pertinente: há sempre a perspectiva de quem julga, suas experiências e seus interesses. Como então lidar com essa multiplicidade de olhares possíveis sobre um mesmo objeto? Kant argumentaria que cada um de nós tem a liberdade de decidir o que é certo ou errado e o mais adequado é optar por aquilo que estamos preparados para seguir como regras invioláveis. É provável que tanta firmeza moral seja difícil demais de ser mantida para a maioria das pessoas, mas talvez uma velha regrinha aprendida em casa seja bastante eficiente: na dúvida, não faça ao outro o que não quer que façam a você. Sem cair na armadilha de um moralismo barato, a frase corporifica o princípio da reciprocidade, que se aplica tanto às intenções quanto aos resultados. Do ponto de vista psíquico, a predisposição de tratar o outro da forma que gostaríamos de ser tratados revela uma boa dose de amadurecimento e sofisticação mental.

Homem Irracional
1h37min – Estados Unidos, 2015
Direção: Woody Allen
Elenco: Emma Stone, Joaquin Phoenix, Parker Posey

Esta resenha foi publicada originalmente na edição de outubro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1N5FOYm

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