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Substâncias da maconha podem amenizar sintomas do câncer, fobia social e aids

O canabidiol, componente químico da erva com efeito antipsicótico, tem se mostrado eficaz para controlar ansiedade ao falar em público; o psicoativo THC reduz náuseas e dores

Fernanda Teixeira Ribeiro
Shutterstock
Os efeitos psicoativos da Cannabis sativa são conhecidos há milênios – na China de 2700 a.C, por exemplo, a erva era cultivada e prescrita como tranquilizante. Entretanto, seu principal componente químico, o delta-9-tetra-hidrocanabinol (THC), foi descoberto há pouco mais de uma década. Cientistas israelenses observaram que essa substância interagia com receptores localizados em áreas do cérebro associadas a processos básicos de sobrevivência, como regulação do apetite e controle de movimentos. Pesquisas que acompanham a ação e os efeitos dos componentes químicos da maconha, os canabinoides, mostram que essas substâncias têm potencial para atenuar a percepção de dor em pacientes com HIV e câncer e para tratar sintomas de fobia social.

Estudos do Center for Medicinal Cannabis Research (CMCR) da Universidade da Califórnia apontam que o THC age significativamente sobre a percepção da dor, revelando-se útil para o tratamento das reações adversas da quimioterapia em pacientes com câncer, como náusea – o que pode ser explicado pela presença de receptores canabinoides no tronco encefálico, envolvido no reflexo do vômito. A substância também parece agir sobre as dores da neuropatia periférica – perda da sensação de toque ou mesmo sensibilidade excessiva da pele – em pessoas com HIV. Os efeitos foram verificados em pacientes que inalaram a erva.

Até agora foram identificados, entre os quase 400 componentes químicos da maconha, cerca de 80 fitocanabinoides, entre eles o THC e o canabidiol (CBD), os mais estudados. Em estudo publicado este ano, os psiquiatras Antônio Zuardi e José Alexandre Crippa, da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão de Preto, testaram o potencial do canabidiol na atenuação da ansiedade em pessoas com fobia social. Os pesquisadores observaram, por meio de monitoramento cerebral, que, após ingerirem uma única cápsula com a substância, os voluntários apresentaram menor nível de ansiedade ao falar por alguns minutos diante de uma câmera.

“O cérebro reage à Cannabis porque produz e libera naturalmente substâncias equivalentes às encontradas na planta. De forma simplificada, produzimos uma espécie de `maconha interna`– os endocanabinoides”, explica o neurobiólogo Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O sistema endocanabinoide responde a substâncias sintetizadas pelo próprio organismo e àquelas presentes na maconha. A diferença está na maior especificidade – em que partes do cérebro e em que circunstâncias os canabinoides endógenos agem – e nas quantidades liberadas, mais reduzidas em comparação com a erva.

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