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Chaves para a leitura subjetiva de Clarice

Visitantes podem vasculhar gavetas em busca de documentos, cartas e manuscritos da autora

agosto de 2007
Graziela Costa Pinto
Divulgação
A linguagem e a emergência de sentido, num contraste entre imagens e silêncios. Um universo enigmático, que se encontra no “prestes a”, no “quase”, ocasiões em que os personagens estão a ponto de se surpreender com eventos de caráter subjetivo, para além do cotidiano. Uma obra feita de palavras simples, cujo segredo está na modulação das frases, na ousadia da pontuação, exercícios lingüísticos que conduzem a outro registro, diverso do significado. A exposição Clarice Lispector – A hora da estrela, em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, aposta na interatividade para trazer ao público essa via sensível das letras.

Logo à entrada, está um enorme retrato da escritora brasileira de origem ucraniana, estampado em filó preto. Quando visto de perto, descortinam-se trechos de suas obras. Um pequeno cômodo remete à atmosfera solitária e sufocante do romance A paixão segundo G.H., em que a arqueologia do ser coincide com a crítica da incomunicabilidade entre as classes sociais.

Mais adiante, retratos espelhados mostram as diversas fases e facetas de Clarice, que além de romancista foi autora de crônicas, contos e histórias infantis. Paredes com 2 mil gavetas dão acesso a materiais inéditos: cabe ao visitante encontrar as chaves para acessar originais, traduções, correspondências e documentos dispostos em apenas 65 delas. A exposição, com curadoria de Júlia Peregrino e Ferreira Gullar e cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, traz ainda recursos audiovisuais, como a entrevista concedida à TV Cultura em 1977, ano de sua morte.

A poética da autora está em sua escrita pulsional. “O sujeito que fala não é preexistente e pré-pensante, não está centrado num lugar seguro de enunciação, mas produz-se, no próprio texto, em instâncias sempre provisórias”, afirma a ensaísta Leyla Perrone-Moisés Esse sujeito, efeito da trama dos signos, remonta ao inconsciente.

A própria Clarice adverte sobre a complexidade de sua escrita no romance Água viva: “Quem me acompanha que me acompanhe: a caminhada é longa, é sofrida mas é vivida. Porque agora te falo a sério: não estou brincando com palavras. Encarno-me nas frases voluptuosas e ininteligíveis que se enovelam para além das palavras. E um silêncio se evola sutil do entrechoque das frases”.

Clarice Lispector – A hora da estrela. Museu da Língua Portuguesa. Praça da Luz, s/nº, São Paulo, SP. Tel.: (11) 3326-0775. Ingressos: R$ 4,00 (grátis aos sábados). De terça a domingo, das 10 h às 17 h. Até 2 de setembro.