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Vida social, hábitos culturais e atividade física para melhorar condições de vida nas cidades

Sem mudanças na rotina para combatê-los, o estresse e a solidão podem trazer sérias consequências para o corpo

abril de 2014
Silvana de Oliveira Domingues Ladeira
Anton Blazah/Shutterstock
Não há dúvida de que o ritmo de vida, os excessos, a incrível velocidade dos fatos ocorridos num tempo cada vez menor afetam as pessoas. As alterações do estilo de vida permeiam as relações afetivas cada vez mais artificiais, a administração do próprio tempo, o estresse e suas consequências, as muitas horas dedicadas ao trabalho, os transtornos alimentares, os distúrbios do sono e outras tantas patologias. O ambiente tem grande importância na constituição da subjetividade e no surgimento de doenças que podem ter como uma das causas o estilo de vida do paciente. E essas questões estão presentes na clínica atual.

O caso de Rita (nome fictício), uma costureira de 52 anos que buscou atendimento psicológico há alguns anos, ilustra o tema. Encaminhada pela equipe de reabilitação de uma unidade básica de saúde (UBS), apresentava “excesso de tensão e não relaxamento nas sessões de exercícios sugeridos”. Contou ter sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) havia oito meses. Morava numa metrópole desde os 15 anos, quando veio do norte do país em busca de melhores condições financeiras.

Durante as sessões de psicoterapia, Rita respondia às perguntas de forma fria e bastante objetiva, apresentava com detalhes todos os tratamentos que realizava com médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e falava também do seu esforço para melhorar. Porém, demonstrava uma negação profunda do AVC, que causou sequela do lado esquerdo do corpo, que por sua vez provocou a perda da função do braço, que se tornou muito rígido, e fez com que passasse a andar “puxando” a perna.

Apesar da aspereza com que falava inicialmente durante as sessões de psicoterapia, aos poucos conseguiu revelar informações sobre si. Desde que se mudou para a cidade grande na adolescência trabalhava num turno extenso durante o dia e fazia horas extras à noite, dependendo da quantidade diária de trabalho. Antes do AVC, trabalhava numa pequena empresa, onde era elogiada pelo perfeccionismo e dedicação extrema.

Suas relações sociais eram muito escassas. Enquanto estava empregada mantinha alguma proximidade somente com as colegas. Embora tivesse se relacionado afetivamente com alguns homens, acreditava que eles não a levavam a sério e a enganavam. Quando iniciou o atendimento psicoterápico recusava-se a sair de casa, exceto para tratamentos de saúde, e esses compromissos tomavam lugar central em sua vida.

Solitária, Rita demonstrava não confiar nas pessoas, não acreditava na possibilidade de desenvolver relações que pudessem proporcionar momentos de prazer. Minha presença como psicoterapeuta, aliás, não tinha grande significado para ela, que se sentia obrigada a estar em psicoterapia por uma imposição do tratamento. Aos poucos, porém, foi diferenciando o espaço terapêutico das consultas médicas. Foi se permitindo chorar, e entendi que suas lágrimas eram marcadas por um desespero profundo, como se ela estivesse aprisionada em um corpo que não reconhecesse como seu.

Ao longo dos encontros, Rita passou a se dar conta do quanto trabalhara ao longo de sua vida e de que sentia que precisava ser perfeita em suas atividades. E reproduzia a mesma cobrança em relação aos exercícios que a equipe de reabilitação lhe passara para aprimorar os movimentos não prejudicados pelo AVC. Ela acredita que “só se sentirá bem novamente quando conseguir todos os seus movimentos de volta”. 

Juntas, percebemos que a perfeição que ela exige de si está calcada em seu funcionamento superegoico, que pode ser representado pelo desejo de se sentir bem-sucedida na família e não fracassar – uma dinâmica que influencia diretamente na tensão corporal. Essas questões fazem pensar nos efeitos do estresse da cidade na vida de Rita. Na vinda para a capital, a paciente recriou significados subjetivos e corporais. Isso a afastou de sua origem e fez com que mergulhasse no desejo de oferecer à família bens materiais de que ela mesma não mais poderia usufruir. Assim, investiu no “virtual”. O trabalho excessivo não tinha significado para ela além do consumo necessário para viver e do acúmulo de bens que pudesse enviar à família.

Aspectos próprios da vida nas grandes cidades como impessoalidade, as pressões de diversas naturezas – e mesmo situações concretas que contribuem para essas vivências, como o trânsito caótico e as longas distâncias a serem percorridas diariamente – nos levam a considerar o surgimento de uma dinâmica de desorganização psíquica progressiva. Esse quadro pode acarretar uma regressão que se expressa no corpo: em pacientes neuróticos, o aparelho psíquico reage, tentando se adaptar a uma nova realidade.

Podemos pensar que no caso de Rita o excesso de trabalho, estresse, solidão e ausência de prazer fizeram com que seu psiquismo não tivesse vazão para tamanha excitação, o que contribuiu para que a saída se desse pela via somática, o que trouxe sérias consequências para o corpo.

Qualquer tentativa de melhorar as condições de vida nas cidades pressupõe modificações radicais e globais, que considerem novas formas de convivência e de reorganização social, o que implica transformações profundas. Na prática, a adoção de hábitos como ida frequente a parques para a prática de atividades físicas, preservação de costumes culturais, além da proximidade como amigos e vizinhos garantem melhorias significativas na qualidade de vida. Mas é fundamental também que sejam criados na cidade espaços de acolhimento nos quais as questões da metrópole ganhem espaço.

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