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Ciência com H

Modo de avaliação de currículo de pesquisadores brasileiros incentiva produção de muitos artigos modestos em vez de poucos com maior qualidade 

novembro de 2012
Gonçalo Viana
Até pouco tempo atrás havia apenas dois modos de medir a qualidade da pesquisa. O melhor deles sempre foi compreender minuciosamente os resultados em questão para depois julgar com profundidade sua importância, em comparação com outros estudos. Por ser subjetivo e especializado, esse método é afetado tanto pela qualidade da pesquisa quanto do leitor. Não se presta ao uso no atacado para mensurar a produção de uma comunidade de cientistas, nem pode ser usado para orientar políticas públicas.

Por essa razão, tornou-se praxe pontuar currículos apenas com base no número de publicações, configurando a infame “numerologia” que ainda domina o sistema de avaliação brasileiro. Esse modo de avaliação incentiva os pesquisadores a publicarem muitos artigos modestos em vez de poucos com maior qualidade e complexidade. O problema fica evidente quando contrastamos o avanço recente na quantidade de artigos brasileiros com a estagnação do impacto internacional dessas publicações. Cada vez mais numerosos, os artigos brasileiros continuam em sua maioria pouco citados, invisíveis internacionalmente.

Isso fica claro quando se calcula o índice H, proposto para estimar o impacto da produção de um cientista com base no número de vezes que seus trabalhos foram citados. O índice H de uma pessoa ou grupo é definido como o número de artigos publicados com citações maiores ou iguais a esse número. Para dar um exemplo, se alguém tem índice H igual a 10, significa que tem 10 trabalhos publicados com pelo menos 10 citações cada. O índice H traz embutida a avaliação criteriosa não de um único leitor, mas de toda a massa da comunidade de especialistas na área. Quando se calcula o índice H dos cientistas brasileiros, verifica-se que a maioria não chega a 10 mesmo ao final da carreira.

É, portanto, curioso que jovens cientistas brasileiros tenham sido criticados por terem “índice H de adolescente”. Por sua própria natureza, o índice H começa em zero e tende a aumentar com o tempo. Isso significa que todos os cientistas que têm H alto passaram em algum momento pelo nível intermediário. Ter “índice H de adolescente” é algo que só acontece a quem conseguiu escapar da produção invisível, inseriu-se internacionalmente e ruma para a maturidade acadêmica.

Um bom exemplo ocorre com Richardson Leão, Katarina Leão e Adriano Tort, docentes do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). São neurocientistas com menos de 40 anos que vêm produzindo artigos focados na qualidade e não na quantidade. Têm índice H entre 5 e 15. Em outubro de 2012 publicaram na revista Nature Neuroscience um importante estudo optogenético sobre o processamento de memórias no hipocampo, em colaboração com cientistas da Universidade de Uppsala, na Suécia. O mesmo artigo poderia ter sido desmembrado em vários pequenos textos, gerando um número maior de publicações à custa da diminuição de seu impacto. Meus colegas optaram por concentrar seus esforços, publicando num único manuscrito várias descobertas, mirando nos critérios de avaliação internacional mais rigorosos. Criticá-los por ainda não terem um maior índice H é esquecer que o futuro pertence aos jovens.