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Cientistas procuram entender o terror

Esse tipo de estudo, porém, é complexo, pois expõe profissionais a riscos e questionamentos éticos; além disso, dados podem ser considerados sigilosos por serviços de segurança 

janeiro de 2016
SHUTTERSTOCK
por Annette Schaefer

Há alguns anos, pesquisadores se concentravam nas raízes políticas do terrorismo, atualmente muitos dos investigadores estudam fatores psicológicos que instigam jovens a ferir e matar civis em nome de um ideal. Hoje se sabe que a maioria dos terroristas não é mentalmente doente; eles pesam racionalmente os custos e os benefícios de suas ações e concluem que o terrorismo é uma forma eficiente de atingir seus objetivos. A dinâmica de grupo e a liderança carismática desempenham papéis poderosos no convencimento das pessoas que abraçam causas radicais. Grupos terroristas frequentemente oferecem a seus membros a sensação de pertencer a um grupo e de estar investido de poder.

Para chegar a essas e outras conclusões, cientistas têm buscado aproximações com participantes dessas facções. “Mas isso nem sempre é fácil, pois as condições em que essas pesquisas empíricas são realizadas muitas vezes expõem os estudiosos a situações de grande risco, além de questionamentos éticos”, diz o criminologista Lorenz Boellinger da Universidade de Bremen, Alemanha. Na última viagem da pesquisadora americana Anne Speckhard ao Líbano, há alguns anos, por exemplo, o Hezbollah ofereceu a ela uma entrevista com um dos principais membros da organização. A psicóloga da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, teve rapidamente de decidir se saltava ou não para dentro de um carro para ser transportada a um local do encontro, não revelado pelos “anfitriões”.

“A coisa mais difícil é calcular o risco em que estamos nos colocando como pesquisadores”, diz Anne Speckhard. Ela se perguntava a todo momento se poderia confiar nos mediadores e ativistas.

A jornalista Nasra Hassan, funcionária da Organização das Nações Unidas, foi exposta a um perigo semelhante quando se encontrou com membros do Hamas e do Jihad islâmico em Gaza, nos anos 90. Os encontros aconteceram em cafés, na praia e em escuras salas dos fundos. Muitos dos entrevistados esconderam os rostos com máscaras e todos eles exigiram total anonimato. “Fui advertida de que meu interesse em tentar entender as missões suicidas era perigoso”, escreveu no New Yorker.

O estudo de terroristas ainda em liberdade, como os que fizeram Speckhard e Hassan, costuma ser o que comporta mais riscos. Um contato com essas pessoas pode ser extremamente perigoso e exige viagens dispendiosas e árduas. Além disso, os que buscam conversar com terroristas frequentemente chamam a atenção das forças armadas e de segurança, que podem vê-los como simpatizantes e passar a investigar e a interrogar esses pesquisadores.

Os benefícios científicos também são dúbios: os terroristas podem, por exemplo, não discutir as motivações e sentimentos abertamente e, em vez disso, veicular propaganda inútil. Mesmo quando os entrevistados são francos, é possível que as ideias deles nunca sejam publicadas. Ariel Merari, da Universidade de Tel Aviv, chegou a falar com combatentes presos do Hezbollah, do Amal e de outros grupos pró-sírios, e aplicou testes psicológicos padronizados. Seus dados, porém, foram considerados secretos e sigilosos pelo serviço de segurança israelense e, portanto, não são mais acessíveis.

Annette Schaefer é economista e jornalista especializada em divulgação científica.

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