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Círculo de sofrimento

Pessoas que sofrem exclusão se tornam mais introspectivas para dar sentido à sua experiência e elaborar estratégias para enfrentar a situação

maio de 2012
Sebastian Dieguez
© Jitloac/Shutterstock
Experiências demonstram que fortes reações fisiológicas ou psicológicas emergem quando as pessoas são excluídas de uma prática na qual os participantes devem passar um ao outro uma bola, mesmo que elas sejam pagas para fazer isso. Diante da ameaça de ostracismo, inúmeros estudos indicam a presença de uma dor viva, a sensação aguda de sofrimento, que se traduz em aumento da pressão sanguínea e da concentração de cortisol no organismo. Essas manifestações são comuns quando percebemos a iminência de algum perigo físico, o que levou certos pesquisadores a postular a ligação entre a exclusão social e a dor física.

Com efeito, um estudo de neuroimagem revelou a presença de ativações cerebrais comuns a essas duas ameaças, em especial no nível de uma estrutura profunda intitulada córtex cingulado anterior. A região é conhecida por sua implicação na experiência do sofrimento associado à dor e não à percepção de sua intensidade, o que significa que ela tem o componente emocional da dor subjacente – mais do que o sensorial. O fato de sua ativação estar também subtendida pelo sofrimento associado à exclusão social permite ponderar uma hipótese interessante, sobre a evolução do ostracismo: em algumas espécies, a natureza teria favorecido a sociabilidade, explorando um velho sistema fisiológico de evitar a dor para implicá-la na regulação das relações interpessoais. Como se trata de um sofrimento quase fisiológico, não é em absoluto surpreendente que ele leve ao ressentimento, à cólera e à depressão.

A vítima da marginalização recorre, em geral, à introspecção para dar sentido à sua experiência e elaborar estratégias para enfrentar a situação. A reação, porém, depende bastante de  intensidade e do número de rejeições sofridas. Num primeiro momento, a pessoa pode tentar ser aceita oferecendo ajuda, ou por meio de atos de altruísmo e gentileza. É isso que faz seguidamente a criatura, infelizmente sem sucesso: “Eu tinha sentimentos de afeto; a resposta a eles foram o ódio e o desprezo”.

Após repetidas frustrações, o indivíduo parece aceitar o estatuto de persona non grata. Nesse estágio, cada tentativa de aproximação social é vista antecipadamente como um fracasso, uma confirmação da sensação de perda de controle do ambiente, e instala-se então o círculo vicioso do ostracismo: prevalece a desistência de tentar aproximações por medo de não ser aceito mais uma vez.

 Estudos revelam que pessoas às quais é dada a possibilidade de punir os que as excluíram tendem a castigar aqueles que não têm nada a ver com seu sofrimento. Isso parece corroborar a noção de desconstrução cognitiva: o excluído não se mostra capaz de examinar detalhadamente o que lhe acontece e atribui a situação a qualquer um que pareça não excluído. Levado ao limite, esse estado pode deflagrar um furor assassino. Em muitos casos, a vítima desse estado pode até ter consciência do caráter irracional de seu comportamento, como o próprio monstro revela em suas palavras: “Eu era escravo e não o senhor de um impulso que me horrorizava, mas do qual eu não conseguia escapar”.

Como hoje a ciência comprova, diante do ostracismo a vida toda perde sentido. Sem a presença e a resposta do outro, torna-se impossível se definir como pessoa. A violência aparece então como meio legítimo de interação, e o suicídio, como a única fuga possível. Como não consegue criar uma rede de significados que lhe forneça uma identidade pessoal, a criatura não consegue se ver de outra forma que não como o monstro que os demais enxergam nela.