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Com a palavra, o cérebro

Em linguagem acessível, o neurocientista indiano Vilayanur S. Ramachandran trata de temas como linguagem, autismo, estética, percepção, transexualidade e síndromes raras

outubro de 2014
Zaphyr/SPL/Latinstock
O neurocientista indiano Vilayanur S. Ramachandran gosta de desvendar mistérios, de preferência sem recorrer a recursos tecnológicos sofisticados. Mas não é nenhum tipo de enigma que fascina esse pesquisador, já chamado de “Marco Polo da neurociência” por Richard Dawkins e de “o moderno Paul Broca” por Eric Kandel: ele se interessa pelos fenômenos que ocorrem no cérebro humano – alguns deles tão estranhos que parecem saídos de um filme de ficção.

Diretor do Centro do Cérebro e da Cognição da Universidade da Califórnia em San Diego e professor emérito do Departamento de Psicologia na mesma instituição, ele tem se dedicado a investigar os mecanismos cerebrais no intuito de compreender os mais sofisticados processos neurológicos.

Em seu livro O que o cérebro tem para contar, lançado pela Zahar, o autor apresenta não apenas casos curiosos e controversos, mas convida o leitor a uma espécie de viagem pelo instigante (e ainda desconhecido) universo que reside na cabeça de cada um de nós. Ele se detém, por exemplo, na forma como o que nossos olhos captam muitas vezes “engana” o cérebro. O interesse é resultado de suas primeiras pesquisas sobre a percepção visual. Não por acaso são atribuídas a ele descobertas de vários efeitos e ilusões, como a que pode ser criada quando o vermelho e o verde são vistos de forma igualmente brilhante.

Ramachandran se tornou conhecido também por ter criado a caixa de espelho, um equipamento simples, construído com papelão, que permite “enganar” o cérebro de pessoas que perderam um dos membros e, assim, eliminar a dor fantasma. Durante um quarto de século, Ramachandran tem trabalhado com pacientes com condições mentais raras e deficiências causadas por lesões, acidente vascular cerebral ou configurações genéticas que, em muitos casos, produzem sintomas pouco comuns.

Entre os voluntários de suas pesquisas estão, por exemplo, pessoas que “veem” a música enquanto a escutam e sentem o gosto das texturas que tocam com os dedos. Há aqueles convictos de que a própria perna ou braço não lhes pertence e desejam que o membro saudável seja amputado e também pacientes que têm a impressão de sair do próprio corpo e enxergá-lo de cima. São abordadas ainda síndromes menos conhecidas, como a de Cotard (na qual a pessoa acredita que não existe) e a de Fregoli (na qual todas as pessoas que o paciente encontra se parecem com uma única pessoa que ele conhece). O que pode parecer curioso ou uma espécie de dom, na opinião de alguns, para Ramachandran é material de estudo.

O neurocientista trata ainda de temas como neurônio-espelho, linguagem, autismo, estética, percepção e transexualidade, sempre do ponto de vista neurológico. O autor também faz alusão a Sherlock Holmes, o mais famoso dos detetives, ao explicar o método “pessoal” que embasa sua abordagem multidisciplinar. Ele se diz impelido pela curiosidade e por uma pergunta incessante: “E se...?”. Embora seu interesse atual seja mesmo a neurologia, seu caso de amor com a ciência remonta à infância vivida em Chennai, na Índia. “Encantava-me a ideia de que todo o universo se baseia em interações simples entre elementos numa lista finita”, conta.

Em relação ao estudo do cérebro, reconhece que sua preferência por métodos de baixa tecnologia, amplamente conhecida no meio científico, se deve, pelo menos em parte, ao fato de ser “preguiçoso”. “Quando digo que prefiro cotonetes e espelhos a aparelhos de imagiologia cerebral, não quero dar a impressão de que evito a tecnologia por completo. Defendo a ideia de que a ciência deveria ser impelida por questões, não por metodologia.”

Apesar de recentemente Ramachandran ter sido criticado nos Estados Unidos por fazer “neurociência pop”, reduzindo temas complexos a explicações amplas e vagas, para leitores não especializados em ciência, O que o cérebro tem para contar cumpre a função de apresentar informações de forma clara, sem profusão de termos técnicos, e, com certeza, afasta a ideia de que assuntos ligados à neurociência são necessariamente enfadonhos ou inacessíveis.

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