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Como a cocaína se apropria do cérebro

De que forma a droga corrompe quimicamente certas regiões cerebrais, promovendo sensação de euforia

abril de 2014
Selma Corrêa
ImageZoo/Corbis/Latinstock
Em menos de uma década o consumo de cocaína no Brasil aumentou mais de 100% e já é quatro vezes superior à média mundial. Os dados foram divulgados pelo Conselho Internacional de Controle de Narcóticos, vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2005, informações fornecidas pela instituição apontavam que 0,7% da população com idades entre 12 e 65 anos consumia a droga no país. cocaína no Brasil. No fim de 2011, a taxa chegou a 1,75%. Segundo a ONU, o consumo brasileiro é bem superior à média mundial, de 0,4% da população. A média brasileira também supera a da América do Sul.
A situação é preocupante, principalmente porque o tratamento é difícil e no mercado faltam produtos específicos para tratar a dependência, que costuma ter consequências catastróficas. “É urgente desenvolver mais medicamentos desse tipo”, ressalta a pesquisadora Nora D. Volkow, diretora do Instituto Nacional de Abuso de Drogas, nos Estados Unidos (Nida, na sigla em inglês). Ela reconhece que um dos grandes problemas nessa área é que as empresas veem poucos benefícios em tratar dependentes sem recursos, especialmente porque muitas companhias de seguros não cobrem os tratamentos. “Enquanto prevalecem interesses econômicos, podemos estar à mercê das drogas que destroem o tecido cerebral responsável pelas dificuldades de controle.”

A cocaína atrai os consumidores corrompendo quimicamente as regiões cerebrais que governam nossas sensações de prazer e recompensa. Quando uma pessoa come algo delicioso, mantém relações sexuais ou desfruta de experiências divertidas, os neurônios da área ventral tegmental (AVT) liberam o neurotransmissor dopamina nas uniões neuronais no núcleo accumbens. As respostas desses neurônios receptores criam sensação de prazer.
A cocaína se apropria desse sistema de recompensa, aderindo aos portadores de dopamina nas terminações dos neurônios AVT, bloqueando a reabsorção de dopamina depois de haver transmitido sua mensagem. Assim, o neurotransmissor se acumula fora dos neurônios receptores e continua estimulando-os e produzindo uma intensa sensação de euforia.
Terese Winslow
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