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Como a mente não consciente detecta mentiras

Estudo sugere que processos cerebrais não relacionados à consciência têm maior participação nas relações interpessoais do que se imagina

junho de 2014
Dooder/Shutterstock
Contamos com uma rede de processos automáticos, não conscientes, que percebe mentiras de forma mais eficiente que a mente consciente. É o que revela uma pesquisa publicada na Psychological Science, na qual voluntários assistiram a vídeos de entrevistas com pessoas acusadas de roubar dinheiro. Parte dos suspeitos, de fato, havia cometido o crime, mas todos se diziam inocentes nos filmes. A cientista Leanne ten Brinke, da Universidade da Califórnia, pediu então aos voluntários que tentassem adivinhar quem mentia ou dizia a verdade. Eles foram capazes de identificar mentirosos em apenas 43% das vezes e os que falavam a verdade em 48 % – estatística já esperada pela pesquisadora.

“Testes tradicionais mostram que humanos são maus detectores de mentira. Identificam, em média, cerca de metade de informações falsas. Isso não é muito mais do que se tentassem adivinhar ao acaso”, explica Leanne. Talvez isso aconteça, sugere, porque, quando buscamos saber se a pessoa está mentindo, tendemos a procurar comportamentos estereotipados de mentirosos, como evitar encarar os olhos do interlocutor ou vacilar nas palavras. Percebidas de forma consciente, essas reações não são suficientes para inferir se a pessoa está dizendo a verdade, principalmente se for um mentiroso habilidoso – pistas mais sutis, porém, parecem ser captadas de maneira não consciente.

Para medir processos automáticos de percepção, a equipe de Leanne usou testes comportamentais de tempo de reação, como o Teste de Associação Implícita (TIA), no qual o voluntário deve relacionar rapidamente palavras a imagens – quanto mais rápida a reação, mais automática e instintiva ela é considerada. Enfim, os resultados mostraram que eram mais propensos a associar inconscientemente palavras com ideia de mentira (por exemplo, “inverídico”, “desonesto” e “enganoso”) aos protagonistas que realmente mentiam nos vídeos. Ao mesmo tempo, os suspeitos que disseram a verdade foram ligados a termos como “honesto” ou “válido”.

“Isso sugere que o cérebro tem um sentido intuitivo, não relacionado à consciência, capaz de avaliar informações que recebe do mundo. Processos não conscientes têm mais participação do que imaginamos nas interações interpessoais”, diz Leanne.

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