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Como lidar com a música que não sai da sua cabeça?

Mascar chiclete ou se distrair pode livrá-lo da canção presa em sua mente; o fenômeno é considerado uma espécie benigna de “ruminação”, um sintoma associado a transtornos de ansiedade e depressão

julho de 2016
SHUTTERSTOCK

Se você está entre os 92% da população que experimentam a dificuldade de esquecer trechos de músicas que surgem sem convite e “grudam” na em nossa cabeça – talvez queira saber como dissipá-los. No livro Alucinações musicais, Relatos sobre a música e o cérebro (Companhia das Letras, 2007), o neurologista americano Oliver Sacks, morto no ano passado, apresentou várias situações clínicas em que pacientes se queixavam de uma espécie de perseguição pela música. O fenômeno – que recebeu o curioso nome de earworms (vermes de ouvido) – é considerado uma forma benigna de ruminação: pensamentos repetitivos e intrusivos associados com ansiedade e depressão. Um fato que chama a atenção é que, em geral, a música que se repete em nossa mente nem é nossa preferida.

De fato, há muito tempo psicólogos procuram maneiras de eliminar esse incômodo. Agora, um estudo da Universidade de Reading, na Inglaterra, aponta uma estratégia simples e eficiente: mascar chiclete. O psicólogo Philip Beaman e seus colegas descobriram que quando universitários eram expostos a um trecho de uma canção cativante, e em seguida mastigavam algo, relataram sentir menos earworms em relação aos colegas que não exercitavam as mandíbulas ou se distraíam de alguma forma. O ato de mascar chiclete, ler em silêncio, falar ou cantar sozinho envolve os chamados articuladores subvocais: a língua, os dentes e outras partes anatômicas usadas para produzir a fala. A descoberta surpreendente é que as subvocalizações diminuem a capacidade do cérebro de formar memórias verbais ou musicais. 

Para algumas pessoas, mastigar algo pode ser o suficiente para tirar da cabeça as repetições contínuas. No entanto, a técnica provavelmente não vai ajudar muito a eliminar melodias profundamente arraigadas. Especialistas dizem que casos tão persistentes são raros, mas não inéditos – e nessa situação chicletes realmente não ajudam. 

Outras estratégias incluem o que a psicóloga britânica especializada em musicoterapia Victoria Williamson, pesquisadora da Universidade de Sheffield, descreve como “distrair-se e envolver-se”. Segundo ela, as táticas mais eficazes para esquecer a melodia intrusiva são verbais ou musicais: vale entoar um mantra, recitar um poema, ouvir uma música diferente ou até mesmo tocar um instrumento. Essas ações ativam o componente da memória de trabalho envolvido nesse tipo de pensamento obsessivo, um ciclo de armazenamento e repetição chamado alça fonológica. “Se você a preencher com outras coisas que ocupam o mesmo circuito, não vai sobrar muito espaço para ideias intrusivas”, diz a especialista.  

Concentrar-se em uma tarefa mental específica – por exemplo, pensar sobre a programação da semana – também pode ajudar a dissipar uma canção insistente. No entanto, se for algo muito fácil ou difícil demais, a mente tende a se entregar aos earworms. É preciso controlar de maneira adequada a carga cognitiva – o que o professor de psicologia Ira Hyman, da Universidade Western Washington, chama de efeito goldilocks (algo como fechamentos de ouro). Pesquisadores da Universidade de Cambridge criaram o que acreditavam ser o exercício perfeito: mentalizar números aleatórios, aproximadamente um por segundo, sem repetir nenhum. 

Outra abordagem comum é envolver-se com os pensamentos intrusivos – e isso serve também para ideias persistentes e repetitivas. No caso específico da música, em vez de tentar não pensar a respeito, a pessoa pode deliberadamente ouvi-la inteira, do começo ao fim, várias vezes seguidas. Os earworms costumam ser fragmentos, o que muito provavelmente contribui com a sua persistência; memórias vagas duram mais tempo do que as completas, um fenômeno conhecido como efeito Zeigarnik. Segundo Victoria Williamson, completar todas as partes pode ajudar a tirar a música da memória consciente. Há casos raros, porém, em que nem a distração nem o envolvimento funcionaram. Segundo alguns especialistas, a longo prazo, uma boa estratégia pode ser simplesmente aprender a desfrutar dos concertos na própria cabeça. (Por Harriet Brown, jornalista científica.)

Esta matéria foi originalmente publicada na edição de junho de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1UbjWih 

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