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Como o cérebro percebe a honestidade

Estruturas neurais ajudam a detectar até que ponto é possível confiar naqueles com quem convivemos

outubro de 2009
© Yuri Arcurs/Shutterstock
Técnicas de imageamento têm mostrado que no nosso cérebro parece ter sido moldado para apreender informações que nem sempre captamos de maneira consciente. Experimentos indicam, por exemplo, que as estruturas neurais nos ajudam a detectar até que ponto é possível confiar naqueles com quem convivemos e negociamos.
Para mostrar como o cérebro reage quando as pessoas se relacionam, pesquisadores do University College de Londres convocaram duplas de voluntários, que não se conheciam, para participar do jogo do dilema social, adaptado de um método adotado pelos cientistas econômicos usado no estudo da cooperação. Sem contato direto durante toda a atividade, um dos voluntários devia enviar uma quantia em dinheiro, a seu critério, ao parceiro. O valor era triplicado ao chegar à conta do outro jogador.
Este, então, pode decidir entre duas possibilidades: devolver a quantia inicial de volta e fazer jus à confiança do parceiro, que, neste caso, recebe três vezes o valor. Esse seria o procedimento honesto. No entanto, o segundo jogador também pode ser egoísta e embolsar tudo, o que maximiza seu lucro, mas pesa no bolso do outro, cuja confiança foi traída.
Do ponto de vista das neurociências, a idéia é entender como o cérebro distingue o honesto do desonesto. Para isso, os pesquisadores deixaram o participante repetir o experimento com diversos parceiros, ora atuando como cooperador (que se comporta sempre de maneira correta), ora como traidor (o eterno egoísta). Depois de 50 rodadas, chega a hora da verdade. Os cientistas apresentaram aos voluntários, que nunca haviam visto antes, a foto de vários parceiros, identificada pelos nomes, e observamos a atividade cerebral por meio da tomografia computadorizada. As expressões faciais nos retratos são completamente neutras, não permitindo conclusão alguma sobre caráter. As imagens foram distribuídas de forma aleatória e o mais rápido possível. Pedia-se aos participantes que diferenciassem os postos de acordo com o sexo − uma tarefa ridiculamente simples.
Os retratos de cooperadores provocavam impressões mais fortes no cérebro, ativando a amígdala, o estriado, o córtex orbitofrontal, o sulco temporal superior e o giro fusiforme. A diferença é que neste caso o impulso relevante não era um rosto, mas exclusivamente o conhecimento que o jogador havia acumulado sobre o comportamento do parceiro. Assim, as regiões cerebrais que processam os sinais sociais no rosto humano também são sensíveis a indícios comportamentais relevantes, como honestidade e vontade de cooperação.