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Como os adolescentes se encontram

Exames de neuroimagem revelam que a preferência dos jovens por conviver com pessoas da mesma idade pode ser resultado de mudanças na anatomia do cérebro que influem na consciência de si mesmo

abril de 2009
© Jacob Wackerhausen/iStockphoto
Não é novidade que adolescentes tendem a formar grupos e a buscar outros para conviver. Tanto que, quando isso não ocorre e o jovem se isola, esse comportamento chama a atenção pais e educadores e os preocupa. Agora, estudos que utilizam neuroimagem revelam que a predileção por pessoas da mesma faixa etária está relacionada a alterações na anatomia cerebral. Esses achados podem dar pistas de como o senso de si mesmo se desenvolve.

Uma forma de construir a autoconsciência é refletir sobre como as pessoas nos percebem, um conceito que os alguns psicólogos chamam de “o self através do vidro”. Para ver como adolescentes reagiam ao que as pessoas pensavam deles, os pesquisadores pediram a meninas, de 10 a 18 anos, que imaginassem situações envolvendo observadores que causariam lhes culpa ou vergonha. Por exemplo: você estava discretamente cutucando o nariz, mas seu amigo a viu.

Os neurocientistas cognitivos Sarah-Jayne Blakemore, da Universidade de Londres, e seus colegas descobriram que, quando comparados com cenários descrevendo emoções básicas, que não envolviam a opinião de outros, como medo ou repulsa, garotas utilizavam mais uma região do cérebro conhecida como córtex pré-frontal medial (CPFM) dorsal do que as mulheres adultas, em cenários similares. Essa área e uma das últimas a se desenvolver antes da vida adulta, e conhecida por ficar ativa quando adultos pensam em si mesmos, em outros ou, até mesmo, em traços de personalidade de animais.
“Do ponto de vista evolutivo, faz bastante sentido que adolescentes estejam mais preocupados com o que os outros pensam porque os pais podem não estar mais com eles por muito tempo”, sugere Blakemore. Segundo o pesquisador, nessa fase, os jovens precisam começar a confiar mais no que seus colegas dizem e desenvolver um senso mais estruturado de si mesmos.

Outra maneira de construir a noção de si mesmo é contemplar seus objetivos e traços, e estudos anteriores mostraram que adolescentes também usam o CPFM dorsal, quando engajados em tal introspecção. Por exemplo, quando a neurocientista, especialista em sócio-desenvolvimento, Jennifer Pfeifer, da Universidade de Oregon, e seus colegas da Universidade da Califórnia, Los Angeles, perguntaram se frases, como “eu faço amigos facilmente”, descreviam-nos ou alguém conhecido – nesse caso, Harry Potter – os pesquisadores descobriram que, quando pensando em si próprios, havia um aumento da atividade do CPFM, em comparação com os adultos.

“A maior atividade no CPFM dorsal nos adolescentes indica que eles estão aprendendo a atribuir estados mentais complexos e percebendo intenções, tanto dos outros como as próprias”, considera o neurocientista Kevin Ochsner, da Universidade de Columbia. Com o amadurecimento, uma menor atividade pode ser vista nessa região, porque o cérebro pode se tornar mais eficiente em processar a auto-reflexão.

Pfeifer também explica que, em adultos, há mais atividade em regiões do cérebro ligadas ao acúmulo de informações sobre si próprio. Em vez de decidirem quem são por várias vezes, os adultos recuperam o que já sabem sobre si mesmos. “Embora áreas relacionadas com a auto-reflexão estejam mais ativas na adolescência, esse mecanismo persiste durante toda a vida. A pessoa ‘recupera’ o mesmo tipo de processo na idade adulta sempre que entrar em um novo estágio da vida, como por exemplo, ao tornar-se pai ou mãe”, ressalta a pesquisadora da Universidade de Oregon.