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agosto de 2007
Agência Fapesp
Pesquisa feita na Unicamp destaca que 65% dos adolescentes usam computador à noite, comprometendo a qualidade do sono e afetando tarefas escolares
(Agência Fapesp) – Estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) concluiu que o uso do computador à noite é feito pela maioria dos adolescentes, com impacto negativo sobre a qualidade do sono e o rendimento escolar.

O trabalho teve base na pesquisa de mestrado de Gema Mesquita, orientada pelo professor Rubens Reimão, do Departamento de Saúde da Criança e do Adolescente da Escola de Ciências Médicas da Unicamp. Os resultados foram publicados no artigo Uso noturno de computador por adolescentes: seu efeito na qualidade de sono, na edição de junho da revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria.

“O trabalho mostrou que os adolescentes estão de fato abusando do uso do computador à noite. Os usuários apresentam elementos de distúrbios do sono e têm mais dificuldade para adormecer e para acompanhar as tarefas escolares no dia seguinte”, disse Reimão.

A pesquisa avaliou que 35% dos jovens não usam computadores à noite. Entre os 65% que utilizam, 75,96% o fazem nos dias de semana entre 18 horas e 6 horas e 90,38% nos fins de semana das 17 horas às 3 horas.
De acordo com o pesquisador, o uso da internet predomina entre os jovens usuários noturnos. “Os pais, de modo geral, acharam positiva a popularização da internet, porque ela contribui para manter o adolescente em casa, longe das drogas. Mas a pesquisa mostra que o abuso também pode ser prejudicial”, destacou.

Mais de 70% dormem mal

Participaram da pesquisa 160 adolescentes (55 meninos e 105 meninas) entre 15 e 18 anos. Todos eram estudantes de duas escolas da cidade mineira de Alfenas. Os dados sobre o número de horas noturnas de uso de computador foram obtidos por meio do questionário, empregando-se o Índice de Qualidade de Sono Pittsburgh (IQSP).

“O IQSP é um índice internacional padronizado para uso retrospectivo que avalia a qualidade do sono no último mês. O índice é composto de 19 itens de auto-avaliação, formando uma pontuação de qualidade de sono. Até cinco pontos, o sono é considerado normal”, explicou Reimão, que é membro do Grupo de Pesquisa Avançada em Medicina do Sono do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A média geral do IQSP foi de 5 para estudantes que não usam computadores à noite e 6,2 entre os usuários, de acordo com a pesquisa. “Mesmo entre os adolescentes que não usam computador à noite, a qualidade de sono já é ruim”, disse o cientista.
A avaliação mostrou que 50% dos não-usuários têm má qualidade de sono avaliada pelo IQSP. Entre os usuários noturnos, 72,6% dormem mal. A análise dos dados revelou que grupos etários predominantes são os de 15 anos (45,19%) e 16 anos (33,65%).

Entre os internautas noturnos, 43,3% têm dificuldade ou indisposição para acompanhar tarefas diurnas, contra 23,2% dos não-usuários. Entre os usuários, 7,7% não se queixam dessas dificuldades, contra 26,8% dos não-usuários.

Entre os não-usuários, o levantamento verificou que 67,9% dormem mais que sete horas por noite. Entre os usuários, o número caiu para 51%. Os usuários têm mais dificuldade para adormecer: 33% demoram de 30 a 60 minutos para pegar no sono, contra 25% dos não-usuários.

“A literatura mostra que a insônia é o mais comum entre os distúrbios do sono. Esses adolescentes demoram para pegar no sono e têm padrões de sono degradados, que vão de duas horas a seis horas por noite”, disse o professor.
Notas mais baixas

A pesquisa incluiu também dados sobre a avaliação escolar dos alunos, que não foram incluídos no artigo. “Os dados apresentados na dissertação indicam que os adolescentes que abusam da internet à noite têm notas piores e faltam mais”, afirmou o professor da Unicamp.

Segundo o pesquisador, o estudo terá continuidade na tese de doutorado de Gema Mesquita, em andamento. “Ela estudará agora o impacto do uso noturno do computador em uma faixa etária entre 18 e 25 anos. Essa fase, quando o indivíduo começa a universidade, também se caracteriza por um uso muito intenso”, disse.

Os ritmos biológicos de sono são determinados por fatores internos e externos. Mudanças de ritmos provocadas por alterações no ambiente externo podem provocar distúrbios de sono, indisposição, modificações gastrointestinais, flutuações do humor, irritabilidade, tensão, confusão, ansiedade e redução da performance em tarefas que requerem atenção e concentração.

“A escola, as horas de trabalho, as horas de lazer e as atividades familiares são fatores externos que sincronizam as horas de sono e vigília. Esse ritmo é estabelecido por uma estrutura neural, mas é influenciada fortemente por fatores externos”, disse Reimão.