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Cores exuberantes estimulam a imaginação

Obra de Lizárraga, tetraplégico desde os anos 80, mostra fronteiras entre linguagem e percepção

março de 2008
Divulgação
Obra Teodolito, de 2007 (Série Janelas), em acrílico sobre tela
No cotidiano, não nos damos conta da complexidade envolvida em cada gesto que fazemos ou imagem que vemos. Mas o tempo todo somos convocados a transformar estímulos e impressões em fatos de linguagem. Cabe ao cérebro a tarefa ininterrupta de decodificá-los, criando categorias (ou representações mentais), que, sincronizadas entre si, transformam-se em percepções: sensações passíveis de se tornar realidade apreensível para o sujeito por meio de etapas simbólicas de organização e interpretação.

Em geral, esse processo de decodificação do registro sensível para o lingüístico ou intelectual ocorre de modo automático, quase à nossa revelia. Toda a exuberância desse processo se revela, por exemplo, no ato criativo (por meio da técnica, dos recursos formais e da exploração das figuras de linguagem, como as metáforas), nos fenômenos sinestésicos (capacidade mental em que o estímulo de um sentido leva à percepção de outro) ou em situações-limite (na emergência de perigo ou de perdas funcionais, motoras ou neurológicas). A produção madura do argentino naturalizado brasileiro Antonio Lizárraga, em exposição no Estúdio Buck, em São Paulo, parece nos lembrar disso.
© Gerty Saruê - Arquivo do artista, São Paulo
O artista nos anos 70
Na mostra com 36 obras, entre telas e desenhos, em cartaz até abril, a cor sobressai à forma. O artista plástico segue a tradição geométrico-construtivista. sua produção dos anos 60 e 70 esteve ligada a experimentações técnicas, sob inspiração de elementos do desenho industrial. Em 1983, sofreu um acidente vascular cerebral que o deixou tetraplégico. Lizárraga passou então a produzir obras com ajuda de colaboradores. A mudança no método de trabalho redundou num novo estilo de arte no qual a experimentação pictórica passou a ser elemento central.

O esquema de transcrição entre imagem mental e execução plástica é altamente minucioso. O artista dita a obra imaginada em seus mínimos detalhes (sempre projetada para tela quadrada e, mais recentemente, retangular). “Só entra na imagem aquilo que pode ser nomeado, medido ou numerado”, afirma o curador da exposição, Lorenzo Mammí. Ainda assim, como lidar intelectualmente com as qualidades do sensível? Justamente aí, nesse impasse, reside a poética de Lizárraga. A abstração calculada e pictórica de suas obras nos remete às enigmáticas fronteiras da linguagem com a percepção – campo de onde o artista parte para testar, até o limite, a capacidade das palavras de significar e enquadrar sentidos, forjando nessa zona de tensão sua gramática da sensibilidade.

Antonio Lizárraga. Pinturas e Desenhos. Estúdio Buck. Rua Lopes Amaral, 123, Vila Olímpia, São Paulo, SP . Tels.: (11) 3846-4028 e 3044-4575. Grátis. De 12 de março a 30 de abril.