Notícias
  
08 de janeiro de 2007
Corpo, moda e escravidão
por Alessandra Sapoznik e Angélica de Azevedo Claudino
Os discursos da moda da anorexia podem formar um par perfeito e mortífero
O corpo tem tido lugar de destaque nos temas da cultura. Nas últimas semanas, a preocupação extrema com a magreza - e o risco dos transtornos alimentares, que podem levar à morte -- se tornou assunto freqüente na mídia. As discussões são renovadas com o início de mais uma edição da São Paulo Fashion Week, dia 24 de janeiro. Do ponto de vista histórico e social, no último século o domínio do corpo foi transferido da Igreja Católica para a biociência e associou-se no imaginário contemporâneo como um objeto maleável, mutante e passível de qualquer transformação. A medicina estética, com todas as suas "intervenções mágicas", técnicas de preenchimento, levantamento e esticamento, tenta vender a idéia de que "o corpo é o espelho da alma". Quanto mais jovem, saudável e "malhado", mais intimamente se está vinculado à idéia de sucesso e autocontrole.

Numa época em que o domínio da imagem é imperioso, a cultura é permeada por ideais nem sempre atingíveis. Esse é o ponto no qual a moda se articula com o narcisismo e transmite sua mensagem: "É possível ser belo, glamouroso e escolher o próprio estilo". Vivemos um paradoxo. Há a ilusão de uma enorme oferta de possibilidades. Mas para aceder aos valores difundidos, é imprescindível submeter-se ao padrão da moda.

Cria-se, assim, a idéia de um corpo servil, uma espécie de "corpo-escravo" que se submete a regras que funcionam como o "leito de Procusto" (cama de ferro onde, segundo a mitologia grega, o vilão estendia suas vítimas e cortava-lhes os pés para que coubessem ali).

Afinal, todos sabem: para ser modelo é preciso ser muito magra, muito alta e muito bonita. E ter estilo, é claro. Assim, é possível ser linda - e mais que isso: poderosa.
1 2 »
Alessandra Sapoznik e Angélica de Azevedo Claudino Alessandra Sapoznik é psicanalista, coordenadora do curso de atualização em transtornos alimentares da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do projeto de investigação e intervenção da clínica de anorexia e bulimia do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientia.

Angélica de Azevedo Claudino é psiquiatra e coordenadora do Programa de Orientação e Assistência a Pacientes com Transtornos Alimentares (Proata-Unifesp).