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Corpo, moda e escravidão

janeiro de 2007
Alessandra Sapoznik e Angélica de Azevedo Claudino
Os discursos da moda da anorexia podem formar um par perfeito e mortífero
O corpo tem tido lugar de destaque nos temas da cultura. Nas últimas semanas, a preocupação extrema com a magreza - e o risco dos transtornos alimentares, que podem levar à morte -- se tornou assunto freqüente na mídia. As discussões são renovadas com o início de mais uma edição da São Paulo Fashion Week, dia 24 de janeiro. Do ponto de vista histórico e social, no último século o domínio do corpo foi transferido da Igreja Católica para a biociência e associou-se no imaginário contemporâneo como um objeto maleável, mutante e passível de qualquer transformação. A medicina estética, com todas as suas "intervenções mágicas", técnicas de preenchimento, levantamento e esticamento, tenta vender a idéia de que "o corpo é o espelho da alma". Quanto mais jovem, saudável e "malhado", mais intimamente se está vinculado à idéia de sucesso e autocontrole.

Numa época em que o domínio da imagem é imperioso, a cultura é permeada por ideais nem sempre atingíveis. Esse é o ponto no qual a moda se articula com o narcisismo e transmite sua mensagem: "É possível ser belo, glamouroso e escolher o próprio estilo". Vivemos um paradoxo. Há a ilusão de uma enorme oferta de possibilidades. Mas para aceder aos valores difundidos, é imprescindível submeter-se ao padrão da moda.

Cria-se, assim, a idéia de um corpo servil, uma espécie de "corpo-escravo" que se submete a regras que funcionam como o "leito de Procusto" (cama de ferro onde, segundo a mitologia grega, o vilão estendia suas vítimas e cortava-lhes os pés para que coubessem ali).

Afinal, todos sabem: para ser modelo é preciso ser muito magra, muito alta e muito bonita. E ter estilo, é claro. Assim, é possível ser linda - e mais que isso: poderosa.
As regras rígidas da indústria da moda funcionam como ímã para algumas jovens com predisposição para desenvolver anorexia nervosa - em geral, são exigentes, extremamente disciplinadas e sensíveis ao olhar do outro.

Estão sempre à procura de um ideal, não exatamente de beleza, mas de força e poder que as faça se sentir menos frágeis, vulneráveis e lhes dê a sensação de controle sobre sua vida. A combinação entre demandas externas e características de personalidade pode resultar numa combinação explosiva.

O anoréxico hostiliza a falta, a imperfeição, a fragilidade. Busca, de alguma maneira, amenizar as angústias e frustrações inerentes à experiência humana. Nesse sentido, os discursos da moda da anorexia podem formar um par perfeito. E mortífero.