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Corpos transtornados

Mostra em Curitiba revela empenho do artista em capturar o irrepresentável da psique humana

novembro de 2008
DIVULGAÇÃO
Em Flores e Músicos: representação com distorções
O intervalo que se interpõe entre as imagens convencionais do corpo e nossa percepção do outro – e de nós mesmos – é tema recorrente na arte moderna. Se até o século XIX as artes plásticas procuravam representar o homem com base em padrões clássicos de equilíbrio ou verossimilhança, o advento da psicanálise e de saberes correlatos abriu nova possibilidade de representação – na qual as mediações subjetivas passam a ser um dado do mundo objetivo. Depois de Freud, nenhuma forma de expressão poderá ser verossímil se não incluir as deformidades e distorções produzidas por nossa vida anímica.

A exposição dos cerca de 60 óleos sobre tela de Josué Demarche – em cartaz no Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba – se insere nesse contexto. Nascido em 1958, o artista catarinense desenvolveu a maior parte de sua obra nos Estados Unidos, na Europa e no Canadá – onde permaneceu entre 1984 e 2006 na cidade de Toronto, trabalhando com artistas como William Ronald, Tom Thomson e Riopelle.

Com curadoria de Liliana Cabral, Demarche – 30 anos de pintura apresenta figuras em cores saturadas, retratos de fisionomias em transe, espasmos do corpo. São “personagens” de grande intensidade emocional, contrastadas com um fundo quase abstrato, como a indicar – pela fusão dos planos pictóricos – a atemporalidade de sensações e experiências que podem ser de puro êxtase ou de horror primal.

O efeito perturbador dessas silhuetas e feições remete à rica linhagem que vai do expressionismo alemão de Ernst Ludwig Kirchner e Emil Nolde até Egon Schiele e Lucien Freud – nomes que fixaram novos parâmetros estéticos. Nesses artistas, contemporâneos dos grandes traumas do século XX, a antiga mimese (no sentido de imitação do real) e o ideal harmônico do Belo cedem lugar a um outro tipo de representação – em que contéudos recalcados ressurgem na forma de fantasmas, sintomas de um mundo subterrâneo, pulsional – e à estética do sublime – que busca dar forma sensível àquilo que é irrepresentável. O corpo transtornado das telas de Demarche deixa um enorme poder de sugestão, estabelecendo entre a gestualidade de suas pinceladas e o olhar do público uma comunicação quase tátil com aquilo que resiste a ser simbolizado.