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Crianças com TOC podem ter alterações em circuitos cerebrais

Pesquisadores da USP observaram em voluntários uma menor ativação na região medial dorsal do lobo frontal, área associada a funções cognitivas complexas

junho de 2015
SHUTTERSTOCK

Conferir se a porta está bem trancada várias vezes em pouco tempo, lavar as mãos excessivamente ou perder horas contando padrões em figuras de azulejos. São exemplos de atos repetitivos ou rituais frequentes em pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Estima-se que o distúrbio atinja mais de 4 milhões no Brasil. Sua causa é possivelmente multifatorial – envolve predisposição genética, desequilíbrio neuroquímico e fatores psíquicos. Agora, um estudo da Universidade de São Paulo (USP) mostra que crianças com TOC podem apresentar comprometimento em alguns circuitos cerebrais.

A literatura científica mostra que pacientes com o transtorno apresentam alterações na memória e nas funções executivas, o que pode influenciar o planejamento e a concretização de comportamentos. O psicólogo Marcelo Camargo Batistuzzo suspeitava que a dificuldade pudesse estar relacionada com falhas na organização do conteúdo que é preciso memorizar durante a codificação de estímulos. Pata testar a hipótese, Batistuzzo e sua equipe decidiram investigar a atividade cerebral de crianças e adolescentes. Eles selecionaram 50 voluntários entre 7 e 17 anos, de ambos os sexos e mesmo nível socioeconômico – 25 diagnosticados com o transtorno e 25 saudáveis (grupo de controle) – e os submeteram a ressonância magnética enquanto realizavam testes de memória.

Durante o exame, os participantes foram expostos a 32 palavras, que foram divididas em duas listas (16 cada uma) – na primeira, de mesma categoria semântica, e na segunda, sem relação entre si. Os termos tinham entre duas e cinco sílabas. Os voluntários visualizavam cada um três vezes por dois segundos. No final, deveriam repetir o máximo que pudessem. Os resultados mostram que não houve diferença significativa entre os grupos em relação à quantidade de palavras lembradas e nem ao índice semântico (que reflete a capacidade de relacionar termos em uma mesma classe, permitindo evocar maior quantidade).

As discrepâncias surgiram quando os cientistas analisaram a correlação entre esses dois fatores. Segundo eles, os voluntários saudáveis utilizaram uma estratégia em que podiam prever o número de termos de que se recordariam, de modo que, quanto mais os categorizavam, mais se lembravam deles. Essa tática, porém, não foi verificada entre as pessoas com TOC. Os pesquisadores observaram também que essa habilidade tendia a ser mais aprimorada nos participantes mais velhos, mas somente entre os que não tinham o distúrbio.

“Essa dificuldade ao longo do desenvolvimento é esperada. Na medida em que a pessoa com TOC cresce, o tempo de convivência com os sintomas obviamente aumenta e as dificuldades cognitivas ficam mais intensas”, esclarece Batistuzzo. Ele afirma ainda que os pacientes demonstraram menor ativação na região medial dorsal do lobo frontal, uma área associada a diversas funções cerebrais complexas. “Os resultados são intrigantes. Acreditamos que a hipoativação dos circuitos neurais pode ser um prejuízo relacionado ao transtorno, apesar de seus efeitos ainda não se manifestarem no comportamento”, ressalta. O psicólogo sugere que os participantes sejam reavaliados num novo estudo na fase adulta.

Com informações da Agência USP.

 

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