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Notícias

Crimes de casal

janeiro de 2007
Para Freud, razão da escolha amorosa está no passado: na vida adulta nos apaixonamos por quem podemos e não por quem queremos
Uma crise. Mentiras, agressões, lágrimas, declarações de amor, traições, culpas e resgates. É disso que trata a peça Pequenos crimes conjugais, de Eric-Emmanuel Scott, traduzida do francês por Paulo Autran, em cartaz em São Paulo. No palco, os personagens Lisa e Gilberto, interpretados por Maria Fernanda Cândido e Petrônio Gontijo, discutem a identidade do casamento e revelam o inevitável: apesar da intimidade, o parceiro sempre pode nos surpreender. E, não raro, nossas próprias opções nos parecem inexplicáveis. Para Freud, a origem das escolhas amorosas está no passado - mais especificamente na infância, quando o primeiro objeto de amor é a mãe. Os relacionamentos são fortemente associados a nossos modelos parentais e às identificações do período edípico. Portanto, na vida adulta nos apaixonamos por quem podemos - e não por quem queremos. Segundo a teoria freudiana, uma pessoa pode amar de acordo com uma escolha anaclítica ou narcísica. Na primeira, o parceiro representa alguém que oferece cuidado e proteção. A segunda remete a características do próprio sujeito que faz a escolha amorosa, enfocando o que se foi e o que se gostaria de ter sido.
Para teóricos que estudam o psiquismo de grupos como o psicanalista Alberto Eiguer, professor da Universidade Paris V, a escolha conjugal funciona como um organizador do psiquismo grupal. Ele considera que o grupo (ainda que formado por duas pessoas) tem potencial para ordenar conteúdos psíquicos dos indivíduos. Num casal, os sujeitos conjugam aspectos conscientes e inconscientes originados na trama identificatória da qual fazem parte sentimentos, emoções, fantasias, idéias, expectativas e projetos compartilhados. Passado o primeiro momento do apaixonamento narcísico, porém, o processo pode se tornar difícil e, muitas vezes, doloroso. Afinal, o outro nos confronta o tempo todo com nossas próprias questões. Aceitar a alteridade requer amadurecimento. E nesse processo, por vezes, pequenos crimes são cometidos.

Pequenos crimes conjugais. De 12 de janeiro a 25 de fevereiro. Sextas às 21h30, sábados às 21 h e domingos às 19 h. Teatro Jaraguá, Rua Martins Fontes, 71, Centro, São Paulo. Tel. (11) 3255-4380. Ingressos: R$ 60,00.