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Cuidado! Não olhe demais para jogadores desajeitados

O sistema neuromotor é influenciado pela análise das ações de principiantes

maio de 2017
Tori Rodriguez
SHUTTERSTOCK
Se você é craque em algum esporte, talvez não tenha muita paciência para observar novatos em ação. O que, aliás, pode ser bom. Um novo estudo constatou que os mais experientes podem ter o desempenho prejudicado ao assistir principiantes. Em experimentos online relatados no periódico Scientific Reports, pesquisadores solicitaram a especialistas em atirar dardos que assistissem a vídeos de novatos em ação para, em seguida, tentar prever onde os objetos arremessados iriam cair. Os profissionais receberam devolutivas sobre suas percepções ao longo do processo, o que ajudou a melhorar suas estimativas. Os resultados mostram que, à medida que os especialistas se tornavam mais precisos para prever os comportamentos dos iniciantes, pioravam em relação ao próprio desempenho no esporte. Interessante notar que esse efeito não teve a ver com as previsões em relação às ações dos novatos. Não é de hoje que pesquisadores debatem se os neurônios do sistema motor estão envolvidos na compreensão dos comportamentos de outras pessoas. Até agora, as pesquisas anteriores haviam somente traçado correlação ou foram inconclusivas.


  • Crianças em movimentoparticipação em esportes coletivos ajuda as crianças a se concentrar e melhora seu desempenho em sala de aula


Nesse novo estudo, porém, o fato de que o desempenho de especialistas tende a piorar progressivamente à medida que sua capacidade preditiva aumenta fornece evidências causais de que o sistema motor está envolvido, pelo menos em alguns aspectos (especificamente com a estimativa dos resultados), na compreensão de ações alheias, argumenta o neurocientista Gowrishankar Ganesh, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Industrial no Japão. Especialista em robótica, ele é coautor do estudo com o neurocientista japonês Tsuyoshi Ikegami, do Centro de Informação e Redes Neurais, em Osaka. Os autores esperam que o trabalho possa um dia ajudar na reabilitação cognitiva e motora. Mais imediatamente, eles sugerem que os atletas devem evitar se concentrar demais na prática dos companheiros de equipe menos qualificados. Treinadores, por outro lado, talvez não precisem se preocupar em desviar os olhos dos aprendizes. “Embora as evidências sejam preliminares, os dados sugerem que quem ensina tende a ser menos prejudicado”, diz Ganesh. “Acreditamos que a ampla experiência pode permitir ao professor aprender como não ser tão afetado pelo processo.”

PENSANDO COM O CORPO

O prejuízo do desempenho depois da observação atenta de comportamentos exemplifica o funcionamento da cognição incorporada: o sistema motor precisa compreender o movimento realizado pelos outros – e essas ações são afetadas pelas novas informações apreendidas pelo corpo. Confira outros exemplos dessa habilidade, já revelada em estudos anteriores: 


  • A capacidade de jogadores de beisebol de prever onde a bola irá pousar depende de como eles se movem em relação a ela, e não da habilidade cerebral de calcular a trajetória. Os atletas se movem em qualquer direção que mantenha a bola a uma velocidade constante em seu campo de visão.

  • Quando dançarinos assistem a alguém dançar num estilo familiar, sua atividade cerebral dispara como se eles mesmos executassem os movimentos. A resposta neural é menos concentrada quando observam um tipo de dança desconhecida

  • Encenar uma história nos ajuda a recordar dela. Um estudo mostra que os participantes que representaram um monólogo se recordavam melhor do texto depois de 30 minutos, em comparação com aqueles que somente liam, discutiam ou respondiam perguntas sobre a história.


Esta matéria foi publicada originalmente na edição de abril de Mente e Cérebro: 

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