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Cuidador também precisa de cuidado

Profissionais de saúde mental tratam da saúde alheia, mas esquecem do bem-estar pessoal, revela estudo da UnB

setembro de 2007
UnB Agência
(Agência UnB) – Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são serviços que oferecem tratamento para indivíduos que sofrem de transtornos mentais severos e/ou persistentes. O atendimento busca a humanização e a reabilitação psicossocial dos usuários. Esse modelo se diferencia radicalmente do oferecido pelos antigos manicômios ou hospitais psiquiátricos. Os Caps são constituídos por equipes multidisciplinares, formadas por psiquiatras, assistentes sociais, arteterapeutas, enfermeiros, musicoterapeutas, psicólogos e professores de educação física, entre outros.

A interação de tais especialidades resulta numa maneira mais complexa de cuidar, exigindo uma prática interdisciplinar, o que muitas vezes pode dificultar o trabalho dos profissionais que não estão habituados a interagir assim. Muitos deles não receberam o conhecimento e o treinamento necessários para lidar com essa prática, inibindo suas atuações na relação com os demais. De acordo com a pesquisadora Elisa Alves, da Universidade de Brasília (UnB), essa é uma das principais dificuldades na concretização do trabalho, o que provoca o mal-estar dos profissionais que atuam nesses serviços.

A psicóloga é autora da dissertação de mestrado Dores dos cuida-dores em saúde mental: Estudo exploratório das relações de (des)cuidado dos profissionais de saúde mental em Centros de Atenção Psicossocial de Goiânia-Go, defendida no Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica e Cultura, do Instituto de Psicologia (IP) da UnB. O estudo é o primeiro a discutir abertamente a situação dos profissionais que trabalham em Caps e foi orientado pelo professor Ileno Izídio da Costa.

FORMAÇÃO – Em muitos casos, não existem disciplinas específicas para a complexidade do tema nas grades curriculares dos formandos dessas áreas. Em decorrência disso, a dificuldade de trabalhar em grupos e em equipe interdisciplinar é uma dos grandes desafios a superar.
Elisa afirma que tais dificuldades não comprometem o atendimento. “Os profissionais são muito preocupados com o usuário, e não deixam que suas divergências interfiram no serviço”, considera. Segundo a psicóloga, os prejudicados são mesmo os próprios membros das equipes de saúde, que não costumam olhar para si mesmos com o devido cuidado, pois sempre objetivam o bem-estar do usuário.

O estudo contou com a participação de 22 profissionais de três Caps de Goiânia (GO). Os arteterapeutas, assistentes sociais, enfermeiros, musicoterapeutas, professores de educação física, psicólogos e psiquiatras participaram de uma pesquisa-ação com Elisa. Após os encontros, a pesquisadora, que já havia trabalhado em Caps, reuniu as principais características vivenciadas pelo grupo nesse ambiente de trabalho, como seus êxitos, dificuldades, queixas e estratégias de ação para qualificar esse novo e desafiante campo laboral.

A falta de estratégias para capacitação também é uma demanda que eles esperam ver solucionada, pois daí advêm os vários problemas de relacionamento relatados pela equipe. Os professores de educação física, por exemplo, lamentam que seus colegas de equipe de Caps não compreendam a importância das atividades desenvolvidas por eles dentro da saúde mental.

ANGÚSTIA – A pesquisa também revelou indicadores de sofrimento psíquico, estresse e sobrecarga emocional. Alguns relataram que se sentem preocupados e angustiados com o sofrimento dos usuários, além de algumas vezes experimentarem frustração e decepção quando as famílias dos usuários não colaboram com o tratamento.

Outras preocupações bastante relevantes dos profissionais de saúde que trabalham em Caps são: ausência de políticas públicas para o setor, que dificulta a atuação e o desenvolvimento das ações no trabalho; baixa remuneração; dupla jornada e falta de reconhecimento. Todas essas demandas foram organizadas por Elisa, a partir das manifestações livres dos participantes, em forma de propostas que serão encaminhadas à Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia e demais instâncias que trabalham com a saúde mental.