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Culturas diversas, emoções mais explícitas

Habitantes de países que ao longo de sua história receberam maior quantidade de imigrantes costumam exibir o que sentem com maior clareza

junho de 2017
Susan Cosier
SHUTTERSTOCK

A psicóloga americana Paula Niedenthal, professora da Universidade Wisconsin-Madison, estava relendo a série The little house on the prairie quando lhe veio uma indagação: de que modo a mistura de culturas, em diversos países, afetou a maneira como as pessoas expressam o que sentem? Dos italianos efusivos aos suecos reticentes, uma variedade de grupos imigrantes teve de aprender a se comunicar durante atividades como o cultivo e o comércio. Ela se perguntava como a longa história de migração de vários países havia influenciado a maneira como as pessoas aprendem a mostrar o que sentem.

Em 2011, Niedenthal encontrou as informações das quais precisava para responder a essa pergunta em um artigo escrito por dois economistas na Universidade Brown, que tratava de culturas migrando para vários países durante os últimos 500 anos. Utilizando esses dados como base, recentemente a psicóloga e seus alunos de pós-graduação publicaram dois artigos demonstrando que as pessoas de culturas heterogêneas (com maior histórico de imigração) exibem emoções mais facilmente identificáveis do que aquelas de culturas homogêneas. 

“Se você compartilha língua e cultura, não precisa ser emocionalmente tão expressivo, os códigos podem ser mais sutis e ainda assim serão captados”, diz a psicóloga. Se não temos essa base comum, é importante que aquilo que sentimos e queremos seja demonstrado de maneiras mais evidentes para que a comunicação se estabeleça e possamos nos compreender melhor.

Em um dos artigos provenientes do grupo de Niedenthal, publicado em 2015 no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences USA, a primeira autora, Magdalena Rychlowska, e os coautores contam que solicitaram a 726 voluntários de nove países que completassem um questionário sobre como reagiam a diferentes expressões faciais. Os pesquisadores constataram que os oriundos de culturas historicamente mais heterogêneas tendiam a ver o sorriso como uma boa razão para ser simpático e se aproximar de outras pessoas. Entretanto, aqueles que vinham de culturas homogêneas costumavam ver o sorriso como uma maneira de demonstrar arrogância e superioridade. “Sorrisos são basicamente como as línguas: você os utiliza de diferentes formas”, diz Rychlowska, atualmente na Universidade de Cardiff, no País de Gales. 

Ampliando esse estudo, Adrienne Wood, pesquisadora do laboratório de Niedenthal, reuniu dados existentes sobre o reconhecimento de emoções com base em 92 artigos representando 82 culturas. A cientista avaliou a frequência com que os participantes da pesquisa atribuíam a emoção correta a uma fotografia, um vídeo ou a algum registro de áudio, considerando a heterogeneidade histórica do país daquele que expressava a emoção. Ela, então, constatou que pessoas de culturas com índices maiores de imigração exibem expressões faciais e indicadores vocais mais facilmente reconhecíveis. “As culturas evoluem com o objetivo de lidar com os desafios particulares de seus ambientes sociais e ecológicos”, diz Wood. Seu estudo foi publicado em 2016 no periódico Emotion.  

Os pesquisadores planejam agora investigar mais dados com base no censo populacional, na tentativa de entender quanto tempo leva para uma população heterogênea mudar a maneira como expressa emoção. “Sabemos que uma longa história de migração muda toda uma cultura, temos muitos exemplos históricos, mas precisamos nos aprofundar, especialmente nestes tempos em que tantos grupos humanos se deslocam pelo planeta e enfrentam barreiras de comunicação de variadas ordens”, afirma Niedenthal.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de maio da Mente e Cérebro, disponível em: 

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