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Da civilização à barbárie

Seis narrativas independentes, mas apoiadas num mesmo tema complexo: leis e aparências mantidas ao custo de hipocrisias, disputas de poder e perversões

abril de 2015
Erane Paladino
DIVULGAÇÃO

Na Grécia Antiga, acreditava-se que o equilíbrio vital dependia, essencialmente, dos fluxos dos líquidos dos organismos, chamados também de humores. Estados de ânimo, tais como depressão ou euforia, estariam associados às oscilações desses fluidos. Ao longo do tempo, fatores culturais e psíquicos passaram a ser vistos como elementos capazes de interferir nessa dinâmica. Ainda hoje, são muitos os desafios de estetas, filósofos e críticos de arte que buscam fundamentos para contemplar o fenômeno do humor em suas diversas manifestações. Na expressão artística, especialmente onde trágico e cômico têm espaço, é que podemos ver traduzidas as cenas cotidianas que evocam essas emoções. Dependendo de como é transmitido, o mesmo tema pode despertar sensação de alívio e risos ou tristeza e angústia. Na Poética, Aristóteles ressalta que a tragédia desperta compaixão e dor no público por meio da mimesis (imitação) de situações de sofrimento nos personagens; na comédia, a exposição ao ridículo, o exagero ou o imprevisto acabam por facilitar o riso. É nessa dicotomia que transita Relatos selvagens, filme dirigido por Damián Szifrón.

Com Ricardo Darín no elenco, é visivelmente inspirado no estilo do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, um dos produtores. São seis narrativas independentes, mas apoiadas num mesmo tema complexo: o jogo paradoxal entre barbárie e civilização com suas hipocrisias, disputas de poder e perversões. Aí vão algumas pinceladas sobre as tramas: um comissário de bordo resolve reunir em um único voo suicida todos os seus desafetos; um milionário sofre violenta retaliação por ofender e humilhar um motorista que o provoca na estrada; uma garçonete reconhece em um freguês o homem que destruiu sua família; um rico empresário não poupa recursos para subornar e corromper as instituições para evitar que seu filho seja punido por um atropelamento; impotente diante da burocracia para recorrer às multas de trânsito, um engenheiro especialista em implosões usa suas habilidades técnicas para se vingar do sistema; em uma ornamentada festa de casamento, guarnecida de todos os itens previsíveis no protocolo, a noiva não consegue manter as aparências depois de descobrir uma traição.

Por estranho que pareça, várias cenas provocam o riso. Por que encontramos humor nos roteiros extraídos do cotidiano que, sem poupar o espectador, percorrem trilhas que margeiam a sordidez e a crueldade? Nesse contexto, o que, afinal, nos faz rir?

No estudo Os chistes e sua relação com o inconsciente, de 1905, Freud defende a ideia de que a comicidade que leva ao riso espontâneo está muitas vezes associada a alguns fatores subliminares presentes na comunicação. Segundo o criador da psicanálise, pessoas do mesmo contexto cultural são, muitas vezes, capazes de entender duplos sentidos e ironias com facilidade: “Diríamos que o riso surge quando certa magnitude de energia psíquica dedicada ao revestimento de determinados caminhos psíquicos pode, portanto, experimentar uma livre descarga”, escreve. A repressão de determinados impulsos vence obstáculos e torna lúdico o que seria proibido. No humor, haveria uma espécie de libertação e certo triunfo narcísico sobre as inúmeras restrições necessárias à vida em sociedade. Para tal, a identificação com as situações torna-se inevitável, mas o tempero caricatural e um tom a mais na carga de dramaticidade podem propiciar um distanciamento facilitador. O resultado imediato está no prazer, que desafoga o eu do desconforto superegoico e libera o riso.

A crítica aos valores, bem como às questões políticas e sociais do mundo ocidental nos dias de hoje, está presente em Relatos selvagens, mas o filme permite também uma catarse coletiva e denuncia sombrios aspectos humanos, seus impulsos primitivos e suas ambiguidades. Do ponto de vista da psicanálise, o ódio seria mais antigo do que o amor. Em O mal-estar da civilização, um texto cético e desencantado ao tratar dessa contradição entre lei e instinto, Freud afirma: “A verdade oculta que negaríamos de bom grado é que os seres humanos não são criaturas ternas e carentes de amor, que só ousariam se defender quando atacadas; pelo contrário, são pessoas cujos dotes instintivos devem ter em conta uma poderosa dose de agressividade. Por conseguinte, o próximo não representa apenas um possível ajudante ou um objeto sexual, mas também um estímulo tentador para a satisfação da agressividade, que leva a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo”.

Este seria, portanto, o chamado mal-estar, fundado num conflito insolúvel entre as forças predatórias humanas e o processo civilizatório. Trazendo à luz esses contrastes e sem censura, Relatos selvagens faz o seu caminho…

Esta matéria foi originalmente publicada na edição de abril de Mente e Cérebro 2015, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/1FHaxa8

 

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