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Delícias da memória

maio de 2009
© Robert Linton/ iStockphoto
Aquela sobremesa deliciosa do jantar da noite de ontem continua provocando forte lembrança? Um prato especialmente saboroso, apesar de ter sido consumido há alguns dias, ainda provoca água na boca? A ciência explica essas reminiscências do paladar. E não se trata de gula, mas de uma formação da memória, segundo resultados de uma pesquisa que será publicado ainda esta semana no site e em breve na edição impressa da revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

O estudo realizado por cientistas dos americanos e italianos indica que a ingestão de alimentos ricos em gordura estimula a formação de memórias de longo prazo, aquela que não desaparece rapidamente. A pesquisa se soma a um trabalho recente do mesmo grupo que havia apontado a relação entre gordura ingerida e controle do apetite e tem implicação importante no desenvolvimento de tratamentos para obesidade e outros distúrbios alimentares.

Os pesquisadores haviam identificado que os ácidos oléicos, obtidos a partir da hidrólise da gordura animal e de certos óleos vegetais, são transformados no intestino delgado em uma molécula chamada de oleoletanolamina (OEA). A OEA envia mensagens de saciedade ao cérebro e, em níveis elevados, pode reduzir o apetite e promover a perda de peso e a diminuição de níveis de triglicérides e de colesterol.
Liderados por Daniele Piomelli, do Instituto Italiano de Tecnologia e da Universidade da Califórnia em Irvine (UCI), e por James McGaugh, da UCI, um dos principais especialistas em memória no mundo, os cientistas descobriram que o OEA também causa a consolidação da memória, processo por meio do qual lembranças de curto prazo são transformadas em memórias de logo prazo, que podem ser “armazenadas”. Esse processo ocorre por meio da ativação de sinais de estímulo na amígdala com a área cerebral envolvida com memórias e eventos emocionais.

Em testes com roedores, os pesquisadores observaram que a administração de OEA levou à melhoria na retenção da memória. Quando receptores celulares ativados pela substância foram bloqueados, os efeitos da retenção da memória diminuíram. “O composto oleoletanolamina é parte da ‘cola molecular’ que faz com que as memórias grudem. Por ajudar a lembrar onde e quando foi feita uma refeição gordurosa, a atividade de estímulo da memória do OEA parece ter sido uma importante ferramenta evolutiva para o homem e outros mamíferos”, disse Piomelli.

Gorduras são importantes para a saúde geral, ajudando na absorção de vitaminas e na proteção de órgãos vitais. Atualmente a dieta do homem é rica em gorduras, mas o mesmo não ocorreu com os primeiros humanos. Na natureza, alimentos ricos em gordura são raros. “Lembrar da localização e do contexto de uma refeição gordurosa foi, provavelmente, um importante mecanismo de sobrevivência para os primeiros humanos. Faz sentido que os mamíferos tenham essa capacidade”, disse o cientista italiano.

Apesar disso, segundo Piomelli, tamanha ajuda para a memória talvez não seja tão benéfica atualmente. Enquanto o oleoletanolamina contribui para a sensação de saciedade após uma refeição, ele pode também estimular a vontade de ingerir novamente alimentos ricos em gordura, que, quando consumidos em excesso, podem causar obesidade. Drogas que simulam os efeitos do oleoletanolamina já estão sendo usadas em estudos clínicos para controle da triglicéride. Os pesquisadores pretendem investigar se tais compostos podem ajudar pessoas com déficit de memória. (Da Agência Fapesp)