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Descoberta proteína que protege cérebro de sintomas da demência

Algumas drogas em estudo, como o lítio, podem ativá-la e, assim, prevenir ou retardar o declínio cognitivo

julho de 2014
“Rest and stress resistance in ageing and alzheimer’s disease,” de Tao Lu et al., em Nature , vol. 507; 27 de março de 2014
Dormente em cérebros adultos jovens (esquerda), a proteína REST tem maior atividade em idosos saudáveis (centro) e aparece muito reduzida em casos de demência (direita)
Pelo menos 35 milhões de pessoas no mundo apresentam demência, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O Alzheimer, por exemplo, o tipo mais comum entre idosos, desponta como um grande problema de saúde nas próximas décadas, associado ao envelhecimento da população. Ainda sem cura, a demência senil desperta o interesse das universidades e da indústria farmacêutica – a descoberta de substâncias capazes de conter o avanço da doença certamente trará melhoras significativas para a qualidade de vida dos pacientes. Mas para isso, presumem os cientistas, é preciso esclarecer os mecanismos envolvidos na principal característica do Alzheimer, que é a aglomeração progressiva de emaranhados de proteína beta-amiloide no cérebro.

Um grupo de pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Harvard concentra-se no estudo de algo que intriga a comunidade científica: autópsias mostram que algumas pessoas morrem com o cérebro biologicamente característico do Alzheimer (com a acumulação das placas de proteína), mas sem ter manifestado os sintomas da doença. “Descobrimos que uma proteína específica, denominada REST, ajuda o cérebro maduro a responder melhor ao estresse e aumenta sua resistência à morte celular”, diz Bruce Yankner, professor de genética e neurologia na universidade, principal autor de um artigo publicado na Nature.

REST é uma proteína codificada por um gene regulador, isto é, que controla a expressão de outros genes. Os cientistas consideraram por muito tempo que ele era ativo no cérebro apenas durante o desenvolvimento fetal, quando a REST cuida da maturação das células neurais, e ficava dormente logo após o nascimento. Yankner explica que a surpreendente reativação da REST no cérebro maduro chamou a atenção de sua equipe através do estudo de modelos computacionais de envelhecimento do cérebro. Assim, em experimentos de cultura de células, os cientistas determinaram que a REST desliga genes que promovem a morte celular e proteínas deformadas.

Posteriormente, em testes com ratos, a equipe demonstrou que cérebros mais idosos sem REST apresentavam mais morte celular e inflamação no hipocampo e encéfalo frontal, aspecto que também é observado na doença de Alzheimer. Quando os cientistas analisaram tecidos post-mortem de cérebros humanos, descobriram fortes correlações entre os níveis de REST e funções de memória. Observaram também que a proteína parece ter efeito protetor: os cérebros haviam desenvolvido emaranhados, mas as pessoas não haviam manifestado sintomas, tinham níveis elevados dessa proteína.

A descoberta sugere novas possibilidades de tratamento. Uma delas é o lítio, capaz de ativar a REST e já estabelecido como droga para transtorno bipolar. Doses não ideais, porém, podem desencadear facilmente efeitos colaterais como tremores, vômito e insuficiência renal. “O tratamento com lítio para demência é, por enquanto, apenas experimental e potencialmente tóxico. Mas é um protótipo para melhores drogas”, diz ele. “Outra perspectiva de estudo são as proteínas que trabalham em conjunto com a REST.”

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