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A complexa relação entre Deus e desejo

Por que algo natural para algumas crenças é considerado aberração por outras? Desde quando as religiões buscam reger a sexualidade? O pesquisador Dag Oistein Endsjo explora essas questões no livro Sexo e Religião

julho de 2014
Fernanda Teixeira Ribeiro
Kaetana/Shutterstock
Hijras, travestidos e castrados: a concepção de que um mesmo espírito pode reencarnar homem ou mulher sustenta a assimilação cultural dos transgêneros entre hindus
“Ele evita o leito do amor e não deseja nada que tenha a ver com casamento.” Assim era Hipólito, herói do mito que inspirou a tragédia escrita pelo poeta Eurípedes em 428 a.C. No auge da beleza e do vigor físico, o jovem desagradou à deusa Afrodite, que ficou ofendida com o desinteresse pelos seus domínios: o amor e o sexo. Ela castigou Hipólito com uma morte dolorosa, enviando monstros para assustar os cavalos que puxavam sua carrua­gem, que tombou, esmagando o corpo do rapaz. Rica em significado, a narrativa mostra que, de acordo com valores sociais e religiosos da época, não era apenas desejável, mas necessário que as pessoas fossem sexualmente ativas. A abstinência, no caso, é antinatural e passível de punição.

A homossexualidade também era encarada de forma diversa na Grécia antiga. Segundo o poeta Píndaro, o amor de homens mais velhos por jovens era diretamente inspirado pelos deuses. Em Creta, era comum que adolescentes fossem, numa espécie de rito de passagem, raptados e iniciados por mais velhos, que assumiam o papel de educar e desenvolver potenciais artísticos e políticos dos protegidos. Naquela cultura, penetrar alguém de condição inferior – fosse mulher, escravo ou mais jovem – era perfeitamente aceitável, mas o contrário era motivo de vergonha.

Na Índia, o comportamento das hijras, homens travestidos e geralmente castrados, é aceito entre os hindus e explicado pela concepção de que um mesmo espírito pode reencarnar homem ou mulher em suas sucessivas vidas. As hijras são popularmente associadas ao mito da deusa Bahuchara, conhecida por mutilar os seios para evitar ser estuprada. Ela teria determinado, segundo a cultura hindu, que seus seguidores cortassem o próprio pênis e vestissem roupas femininas.

É difícil não pensar sobre o estranhamento que esses comportamentos causariam em nossa cultura, permeada por valores cristãos, como a maioria das sociedades ocidentais. O relacionamento heterossexual monogâmico é geralmente considerado a única forma normal – no sentido de natural, correta, desejável a Deus – de sexualidade. Essa noção fundamenta reações furiosas de setores da sociedade e partidos políticos que se denominam cristãos diante de pautas como o casamento homossexual e a ampliação do direito da mulher ao aborto legalizado e seguro.

Por que algo natural para algumas crenças é tido como aberração por outras? Desde quando e por que as religiões buscam reger a sexualidade? Pesquisador das relações entre religião e sexualidade, o norueguês Dag Oistein Endsjo se aprofunda nessas questões no intrigante Sexo e religião – Do baile de virgens ao sexo sagrado homossexual (Geração, 2014).

Professor de estudos religiosos na Universidade de Bergen, na Noruega, Endsjo revela ao leitor a moral sexual das grandes religiões – cristianismo, judaísmo, hinduísmo, islamismo e budismo – e de algumas seitas modernas, religiões extintas e ritos tribais. Com um olhar atento, pontua como alguns comportamentos mudaram ao longo do tempo, de acordo com a diferente compreensão dos textos sagrados e a adaptação à modernidade. Analisa concepções sobre masturbação, abstinência, poligamia, virgindade, sexo oral e anal, homossexualidade, incesto, estupro e prostituição. Defende que o modo como uma religião em particular trata o sexo transmite pistas importantes sobre o que é aceito ou rejeitado.

Para o catolicismo, o casamento heterossexual, justificado por fins reprodutivos, é a única alternativa ao celibato. Já no budismo – o problema está no desejo – era preferível que monges que não conseguissem controlar seus impulsos sexuais tivessem relações com outro homem comum ou com pandakas (como chamavam rapazes afeminados, aos quais atribuíam um imenso desejo por outros do mesmo sexo) do que com mulheres, tipo de contato por vezes punido com expulsão do mosteiro. Concepção que não se aplicava às monjas: consideradas lascivas por natureza, a quebra da abstinência pelas mulheres era condenável em qualquer situação. Esse exemplo mostra que é impossível analisar as relações entre sexualidade e sociedade sem se aprofundar nas questões de gênero – e Endsjo instiga a ver, bem além do discurso moderno e superficial de uma pretensa igualdade entre os sexos, o quanto determinações religiosas ainda se interpõem no cotidiano.

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