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Diga-me do que gosta e direi quem você é

Música clássica ou canções dos Beatles? Obras de Piscasso ou de Monet? Preferência não se discute, mas ela pode oferecer pistas sobre características psicológicas

maio de 2014
Christiane Gelitz
Imagens: Manfred zentsch/Gehirn&Geist

Imagine que um amigo o convidou para visitá-lo em sua nova casa. Enquanto ele coloca um disco de jazz, você observa o ambiente: uma estante contém bons livros e há a reprodução de um quadro de Mondrian na parede. Seu anfitrião divide a casa com uma colega e, a caminho da cozinha, você passa em frente ao quarto dela: uma moldura exibe um pôster da obra Nenúfares, de Monet; há uma prateleira com CDs de artistas da moda, DVDs da série de TV americana Friends e revistas de fofocas espalhadas pelo chão.

O que esses detalhes revelam sobre a personalidade dos dois moradores da casa? Se depender das constatações de pesquisas sobre a relação entre preferências estéticas e traços psicológicos, os dois teriam, provavelmente, muito pouco em comum. Os livros e as reproduções de obras dele indicam uma pessoa aberta a novas experiências e emocionalmente estável. As predileções culturais dela, no entanto, correspondem às de alguém com humor instável e que evita novidades.

Em que se baseiam essas suposições? Pesquisadores de vários países têm estudado a relação entre preferências estéticas e traços de personalidade. Uma grande pesquisa sobre o tema foi feita em 2009, coordenada pelo psicólogo Tomas Chamorro-Premuzik, da Universidade de Londres.  Foram reunidos, por meio de um teste on-line, dados de aproximadamente 90 mil pessoas, com idade entre 13 e 90 anos. Os participantes foram orientados a avaliar 24 pinturas, distribuídas em quatro estilos – cubista, renascentista, impressionista e de temas japoneses –, e, em seguida, responder a um questionário que avaliava os cinco grandes fatores da personalidade: abertura a novas experiências, extroversão, instabilidade emocional (ou neuroticismo), amabilidade e conscienciosidade.

Constatou-se que pessoas que demonstraram maior interesse pelas imagens impressionistas obtiveram, no questionário, uma alta pontuação nos quesitos “amabilidade” e “conscienciosidade” e uma pontuação abaixo da média em “abertura a novas experiências” – fator que, no entanto, se revelou relacionado ao gosto pelos demais estilos, principalmente o cubista.

As bases para essa pesquisa provêm de outro trabalho de Chamorro-Premuzic, realizado alguns anos antes, em conjunto com o psicólogo Adrian Furnham, da University College London, na Inglaterra. Eles descobriram que era possível prever cerca de 20% das diferenças entre o gosto artístico de duas pessoas com base nos cinco fatores da personalidade – precisão cinco vezes maior do que se fosse baseada em resultados de testes de inteligência! Em outras palavras: aquilo de que gostamos “naturalmente” é uma questão de tipologia, não de capacidade cognitiva.

Em 2005, Sam Gosling, da Universidade do Texas, estudou como é possível tirar conclusões – corretas e equivocadas – sobre uma pessoa com base em seu material de leitura. Ele convidou voluntários para observar quartos de desconhecidos e, em seguida, opinar sobre a personalidade do proprietário. A maioria dos participantes deduziu que pessoas que acumulavam uma grande quantidade de jornais, livros e CDs eram mais abertas a novas experiências. Gosling, porém, já havia constatado que o indício de personalidade não está na quantidade de material de leitura, mas no tipo das publicações. Observou-se que histórias em quadrinhos e livros sobre música e filosofia surpreendentemente revelavam muito pouco sobre a personalidade de seus proprietários. No entanto, volumes de arte, psicologia, poesia e revistas noticiosas costumavam ser lidos por pessoas abertas a novas experiências, enquanto publicações com conteúdo humorístico ou político estavam entre as preferências de indivíduos conservadores.

Um trabalho semelhante foi desenvolvido pelos psicólogos Nicola Schutte e John Malouff, da Universidade de New England, na Austrália, em 2004. Mais de 200 estudantes foram convidados a preencher um questionário que avaliava os cinco fatores de personalidade e a responder perguntas sobre suas preferências literárias. Os resultados indicaram que pessoas que fizeram mais pontos no quesito “abertura a novas experiências” preferiam, em geral, clássicos da literatura e acompanhavam a seção cultural de revistas e jornais. O mesmo foi concluído a respeito de leitores de publicações científicas – predileção relacionada também à alta pontuação no quesito “conscienciosidade”. Em contrapartida, adeptos de revistas de fofocas e romances “água com açúcar” pon-tuaram menos no fator “abertura”, porém ficaram acima da média em “extroversão”.

Resultado semelhante ao de um estudo feito na Holanda, em 2005.  Os pesquisadores Gerbert Kraaykamp, da Universidade de Nijmegen, e Koen van Eijck, hoje da Universidade Erasmus, entrevistaram mais de 3.500 homens e mulheres, entre 18 e 70 anos, representantes de vários grupos sociais. Observou-se que pessoas que se descreveram como “abertas a novidades” frequentavam mais eventos culturais e revelavam maior interesse por atividades como ir ao teatro e ouvir música clássica. Também escutavam canções de ídolos pop e assistiam a filmes “comerciais”, com a intenção de se divertir. A maioria dessas pessoas, no entanto, afirmou evitar duas ocupações em especial: assistir a filmes ou ler livros excessivamente românticos. Essas atividades, porém, eram preferência de voluntários que se declararam emocionalmente instáveis. Segundo os pesquisadores, esse tipo de lazer gera algum tipo de satisfação ou consolo.

Mas todos os estudos parecem convergir em um ponto: considerando os grandes fatores da personalidade, pessoas com altas pontuações em “instabilidade emocional” e “amabilidade” costumam optar por atividades de lazer despretensiosas, que não demandam grande elaboração intelectual, distinguindo-se daquelas que pontuam acima da média em “abertura para novas experiências” – elas cultivam, em geral, vários interesses. Tendem a preferir livros e filmes mais complexos e demonstram ser mais críticas.

As preferências estéticas também têm sido relacionadas ao que alguns estudiosos chamam de “busca por sensações” (sensation seeking). Esse traço psicológico foi descrito pela primeira vez nos anos 1970 pelo psicólogo Marvin Zuckerman, da Universidade de Delaware, Estados Unidos. Sensation seekers são pessoas que não suportam a monotonia e o tédio. Elas anseiam por estímulos e os buscam por meio de experiências intensas ou mesmo arriscadas.

A busca por sensações é considerada um aspecto do fator “abertura para experiências”. Em 2001, o pesquisador Adrian Furnham observou que pessoas com esse comportamento tendiam a gostar de arte abstrata, pop arte surrealismo, na mesma medida em que rejeitavam pinturas representativas. De acordo com Furnham, motivos visuais tradicionais e amenos despertariam estímulos demasiado sutis para um sensation seeker; enquanto a ambiguidade e a confusão gerada pelas imagens abstratas os satisfariam. Esse tipo de arte costuma gerar excitação mesmo em uma segunda observação, o que atrai pessoas que se entediam facilmente.

A “caça de emoções” está relacionada também às preferências musicais.  Zuckerman descobriu que pessoas ávidas por sensações preferem, em geral, ouvir rock e composições clássicas. Os estilos que elas mais rejeitam são trilhas sonoras de filmes e cânticos religiosos, por serem considerados monótonos. Logo, aquele que consegue relaxar melhor com as batidas de Marilyn Manson ou com free jazz revela ter, além do gosto peculiar, uma considerável sede de estímulos.

Dessa forma, um CD com as músicas preferidas de uma pessoa desconhecida pode funcionar como um cartão de visitas.  Em 2006, Gosling e o psicólogo Peter Rentfrow, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, constataram que essa primeira impressão intuitiva frequentemente está correta. Os participantes de sua pesquisa ouviram as dez músicas preferidas de pessoas que não conheciam e tiraram, a partir daí, conclusões sobre elas. Os julgamentos relativos à forma de encarar experiências e novidades foram os mais acertados. A extroversão foi corretamente identificada também pelos ouvintes que participaram do teste.

Os dois psicólogos reduziram os estilos musicais a quatro grupos principais, com base nas preferências de mais de 3 mil estudantes da Universidade do Texas: o estilo “intenso e rebelde”, cujos ouvintes se descreveram como pessoas com abertura a novas experiências; acima da média; o tipo de música “reflexivo e complexo”, que atrai adeptos abertos e politicamente liberais; o estilo “rítmico e dinâmico”, com ouvintes extrovertidos; o “convencional e alegre”, também preferido por pessoas extrovertidas, afáveis, conscientes de suas responsabilidades e conservadoras.

Uma equipe coordenada pelo pesquisador Marc Delsing, da Universidade de Utrecht, Holanda, constatou algo similar em 2008. Os pesquisadores da área social recorreram aos dados de uma amostra representativa com mais de 7 mil adolescentes holandeses entre 12 e 16 anos, que participaram de uma enquete sobre o consumo de drogas empreendida pelo governo. O questionário, porém, não incluiu gêneros musicais menos comuns na Holanda (como folk, country, blues e soundtracks), mas continha ritmos como hardcore, punk e gothic.

Ele descobriu quatro grupos praticamente idênticos de preferências. Apenas um estilo teve de ser deslocado para outro grupo: o gospel, que na amostra americana, junto com as músicas pop, caracterizava a categoria “convencional e alegre”, enquanto na amostra de Delsing foi parar junto com o jazz e a música clássica. Além disso, os ouvintes holandeses de jazz e clássico se descreveram mais frequentemente como emocionalmente instáveis, enquanto os apreciadores desses gêneros nos Estados Unidos tendiam à direção oposta. Delsing supõe: “Para universitários é normal ouvir a música da ‘elite’, enquanto para os adolescentes isso é mais um indício de instabilidade emocional”.

Como os alunos holandeses voltaram a ser entrevistados durante três anos consecutivos, o pesquisador pôde acompanhar o desenvolvimento de suas preferências e constatou que na juventude poucos mudaram seu gosto, e com o aumento da idade ele foi se tornando cada vez mais sólido. Delsing avaliou ainda se, a partir dos traços de personalidade, era possível prever quem mudaria suas preferências musicais no futuro. Realmente, havia diversas características que permitiam o prognóstico: jovens extrovertidos, por exemplo, se distanciavam cada vez mais, com o passar dos anos, do rock e do punk, voltando-se para o pop e o urban.

Os quatro tipos de música não podem ser generalizados. Isso ficou demonstrado, entre outros, por um estudo realizado na Turquia em  2008. O psicólogo Hasan Tekman, da Universidade de Uludag, descobriu em seus dados um quinto estilo musical, que definiu como “música folclórica turca”, cujos fãs se destacavam principalmente pela alta amabilidade, conscienciosidade acima da média e uma leve tendência ao neuroticismo. Com os outros estilos musicais ele obteve associações com traços de personalidade diferentes das encontradas pelos pesquisadores nos Estados Unidos e na Holanda. Assim, a abertura para novas experiências estava muito mais fortemente associada à predileção pela música intensa e rebelde, enquanto a preferência pelo estilo reflexivo e complexo indicava caráter um pouco menos afável.

O modelo de Rentfrow e Gosling tem recebido várias críticas. “Com o resumo grosseiro em quatro categorias, perdem-se várias informações sobre a personalidade que podem ser aferidas pela preferência por determinados estilos musicais”, conclui um estudo de Richard Zweigenhaft, do Guilford College, nos Estados Unidos. Além disso, é possível constatar mais sobre a personalidade com base mais em alguns estilos musicais que em outros, segundo o psicólogo, em razão de certos gêneros serem facilmente mascarados pelas categorias generalizadas.

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