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Dor crônica: porque elas sofrem mais do que eles?

Diferentes usos do mecanismo cerebral que interpreta e suprime sinais dolorosos ajudam a entender o motivo da síndrome afetar mais às mulheres

agosto de 2014
Selma Corrêa
Shutterstock
Nos últimos anos, a neurocientista Anne Murphy, da Universidade da Geórgia, em Atenas, tem se empenhado em descobrir por que a dor crônica afeta mais as mulheres que os homens. Ela está particularmente interessada em um circuito de suprimir a dor que liga duas partes do cérebro – substância cinzenta periaquedutal (PAG) e da medula ventromedial rostral (RVM) – com a medula espinhal.

O mecanismo é ativado por um sinal que pode diminuir a dor, causando uma reação em cadeia que leva à liberação de endorfinas, que por sua vez se ligam a receptores opioides e inibem o sinal doloroso. “Este circuito é o centro de modulação da dor em todos os vertebrados, mas ninguém sabe ao certo como ele está organizado nas mulheres”, diz a pesquisadora.

Não há uma resposta clara ainda, mas as investigações de Anne Murphy já produziram alguns resultados intrigantes. As fêmeas têm uma ligação mais densa entre PAG e RVM do que os machos; no entanto, o estudo sugere que essa via não é ativada nelas para suprimir a dor. O motivo ainda é um mistério, mas o pesquisador Jeff Mogil, da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá, acredita que pode ter encontrado pelo menos uma parte do circuito de dor feminino. Em experimentos com camundongos, ele bloqueou quimicamente um receptor específico encontrado em neurônios no PAG rato e na medula espinhal. Mogil descobriu que camundongos machos usam receptores para atenuar a sensação de dor, mas o bloqueio dessa via teve pouco impacto na capacidade das mulheres para lidar com a dor, o que sugere que elas “usam” esse aparato neurológico de outra forma.

As experiências genéticas em ratos o levaram a suspeitar que a inibição da dor no organismo da fêmea pode ser ligada a variações específicas no gene para o receptor de melanocortina-1 (Mc1r), que regula cor do cabelo e da pele em seres humanos e também se expressa no PAG. Fêmeas de camundongo que não tinham uma versão funcional desses genes foram menos capazes de bloquear a dor, assim como mulheres ruivas, que também não têm genes MC1r ativos. Já os homens ruivos não têm problema de bloqueio de dor, talvez porque usem circuitos diferentes dos das mulheres nesse processo.

Se de fato for comprovado que mulheres têm um circuito de amortecimento de dor diferente do usado pelos homens, fica mais compreensível que existam peculiaridades entre os sexos no que diz respeito à resposta a analgésicos opioides. Mulheres em geral obtêm mais alívio com nalbufina do que com morfina, enquanto para eles morfina é mais eficaz e nalbufina chega a aumentar a intensidade da dor. Embora atualmente não haja literatura científica consistente sobre o tema, é possível pensar que no futuro esse tipo de descoberta possa levar ao desenvolvimento de analgésicos mais eficazes para mulheres.

Para Mogil, é urgente quebrar barreiras culturais e científicas para acelerar esse desenvolvimento: “É inadmissível que as mulheres sejam as que mais sofrem de dores e ainda assim o nosso modelo para a pesquisa básica nessa área sejam animais do sexo masculino”, diz. 

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