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Dormir bem é fundamental para o aprendizado

O sono promove a consolidação e reestruturação de memórias através de mecanismos que vêm sendo esclarecidos nas últimas décadas

março de 2015
Sidarta Ribeiro, Andrea Delandes e Valter Fernandes
Shutterstock

Não é exagero dizer que a falta de sono inviabiliza o aprendizado. Vários estudos desenvolvidos em laboratório são enfáticos ao apontar o papel crucial do sono tanto antes quanto depois da formação de novas memórias. Para estar apto ao aprendizado, o cérebro precisa primeiro passar por várias horas de sono sem perturbações. Isso permite a eliminação de neurotoxinas e a reposição de metabólitos despendidos durante a vigília. Após o aprendizado, o sono promove a consolidação e reestruturação de memórias através de mecanismos que vêm sendo esclarecidos nas últimas décadas.

Sabemos que o papel cognitivo do sono após o aprendizado depende da elevação dos níveis intracelulares de cálcio em neurônios de regiões como o hipocampo e o córtex cerebral. A sinalização iniciada pelo cálcio engaja diversas proteínas capazes de ativar umas às outras através da fosforilação de aminoácidos específicos. O processo transcorre como uma cascata de dominós, o precedente derrubando o subsequente, até que algumas dessas proteínas fosforiladas penetrem o núcleo neuronal para agir como fatores de transcrição, isto é, proteínas capazes de promover a expressão de certos genes.  No caso do sono, são genes que codificam proteínas necessárias à remodelagem sináptica. Tais processos são ativados durante o sono, permitindo o processamento de memórias sem nenhuma interferência sensorial.

Os múltiplos resultados de laboratório que indicam a importância de dormir bem para a cognição têm motivado pesquisas em salas de aula sobre o valor da soneca para a assimilação de conteúdos. Em 2014, as pesquisadoras brasileiras Natália Lemos e Janaina Weissheimer publicaram um estudo coordenado por Sidarta Ribeiro demonstrando o efeito benéfico da soneca na retenção de memórias adquiridas na escola. Um total de 584 crianças da sexta série, com idade entre 10 e 15 anos, recebeu uma aula experimental e em seguida elas foram sorteadas para seguirem em vigília ou dormirem nas duas horas seguintes. Para avaliar o aprendizado, provas-surpresa foram aplicadas dias ou meses depois da aula. Os resultados mostraram índices de aprendizado muito semelhantes nos grupos de vigília e sono quando a avaliação ocorreu um único dia após a aula. Entretanto, cinco dias depois, somente o grupo que dormiu manteve os ganhos cognitivos.

Esses resultados sugerem que a soneca pós--aula pode aumentar a duração das memórias adquiridas no contexto escolar. Em dissertação de mestrado defendida em 2014 sob a orientação de Sidarta Ribeiro, o pesquisador Thiago Cabral mostrou que os efeitos benéficos da soneca na escola são mais robustos quando a duração do sono ultrapassa 30 minutos. Porém, mais experimentos ainda precisam ser desenvolvidos para ampliar o conhecimento nessa área.

Leia o texto completo: "Dormir bem, comer melhor e fazer exercícios físicos para aprender mais", capa da edição de março de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/184InXR

 

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