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Dormir, lembrar e esquecer

Consolidação de memórias, sobretudo as traumáticas, tem relação direta com nosso sono

maio de 2013
Stephani Sutherland
Guryanov Andrey/Shutterstock
Os efeitos de uma noite maldormida vão muito além de mau humor e cansaço. A ciência já comprovou que horas insuficientes de sono estão relacionadas a ganho de peso, aumento de cortisol (hormônio associado ao estresse) na corrente sanguínea e queda da capacidade de armazenar recordações. Estudos recentes, aliás, revelam novos aspectos da estreita relação entre memória e sono. Um artigo publicado em Neuropsychopharmacology em outubro de 2012 apontou que dormir logo depois de passar por uma situação muito estressante pode piorar os sintomas de estresse pós-traumático (TEPT). Para simular um evento traumático, os pesquisadores expuseram roedores ao cheiro de um predador. Durante as seis horas seguintes, eles impediram metade dos ratos de dormir; os restantes formaram o grupo de controle. Os cientistas observaram que os animais que não dormiram mostraram menos sinais de estresse psicológico. Outro trabalho, publicado em Neuroscience Letters, aponta que a privação de sono pode também reduzir o impacto de lesão cerebral traumática (TBI, na sigla em inglês) – camundongos com TBI apresentaram menos sintomas de dano quando foram mantidos acordados por 24 horas depois do dano.

Reunidos, esses estudos sugerem que manter-se acordado por mais tempo depois de um evento traumático faz com que memórias desagradáveis se imprimam com menos nitidez no cérebro – ideia que vai ao encontro de descobertas que comprovam o papel do sono para fortalecer lembranças emocionais. Isso ocorre porque, quando dormimos, ocorre um “afrouxamento” natural das sinapses, as conexões entre os neurônios. Situações de estresse, porém, aumentam o nível de neurotransmissores no sangue, o que estimula sinapses. Isso, por sua vez, faz com que as recordações do trauma se imprimam na mente com maior nitidez. Segundo a neurocientista Gina Poe, da Universidade de Michigan, o afrouxamento das sinapses está associado à diminuição dos níveis do neurotransmissor noradrenalina. Em pesquisas com ratos, ela descobriu que as quantidades da substância geralmente caem durante o sono REM (Rapid Eye Movement, fase relacionada à consolidação de memórias) em roedores e também em humanos. No entanto, tanto animais como pessoas com TEPT costumam apresentar taxas altas da substância enquanto dormem. Dessa forma, fármacos que tenham como alvo a noradrenalina representam uma esperança para “curar sintomas de estresse pós-traumático enquanto o paciente dorme”, considera Gina.

Em outro estudo, a neurocientista Asya Rolls, da Universidade Stanford, conseguiu interferir na memória de ratos durante o sono e reduzir a intensidade de algumas associações traumáticas. Primeiro, Asya e sua equipe condicionaram os animais a ter medo quando sentiam cheiro de jasmim, relacionando o odor a sessões de choques elétricos. Em seguida, quando os bichos dormiram, os pesquisadores liberaram essência de jasmim no ar. Porém, para prevenir que o cheiro reativasse e encorpasse memórias ruins (um processo que requer proteínas estruturais), deram aos animais drogas que bloquearam a produção dessas moléculas em uma área do cérebro com função-chave no processamento de lembranças de medo. Quando os ratos acordaram, não reagiram de maneira que demonstrasse receio ou ansiedade, o que, segundo Asya, sugere que as associações traumáticas foram “apagadas” com sucesso. 

Esses resultados abrem perspectivas para criar intervenções direcionadas a experiências estressantes relacionadas a sons e a cheiros específicos. Os tratamentos atuais de TEPT são baseados em terapia de exposição. O paciente é gradualmente confrontado com situações aflitivas e estimulado a criar novas associações, de conforto e segurança. A esperança é que a neurociência possa, em breve, ajudar o cérebro a se recuperar de traumas – de preferência, dormindo.


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