Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

Dos robôs domésticos ao tofu

Previsões feitas pelo autor de ficção científica Isaac Asimov em 1964 anteciparam algumas inovações

abril de 2015
IMAGEM DO FILME 2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO (1968) DE STANLEY KUBRICK/DIVULGAÇÃO

Previsões sobre o futuro da tecnologia quase nunca acertam. De acordo com o filme 2001: uma odisseia no espaço (1968), por exemplo, a humanidade já deveria ter desenvolvido voos para além dos limites do sistema solar. Já a obra 1984 (1949) previu que nos tornaríamos uma sociedade de peões descerebrados trabalhando sob a vigilância constante de governantes sem rosto... Destoa completamente da realidade?

De qualquer forma, Isaac Asimov, o venerado autor de ficção científica, tentou, em 1964, descrever o mundo atual. Em um artigo do The New York Times publicado há 50 anos, Asimov chamou sua visão de “Visita à Feira Mundial de 2014”. Agora, em 2015, vamos desenterrar sua pequena cápsula do tempo e ver como ficaram suas previsões?

Vamos separar suas projeções em duas categorias: as que se tornaram realidade e as que se desfizeram. Ele merece os devidos créditos por antecipar carros com piloto automático, chamadas com vídeo, a disseminação da energia nuclear e robôs domésticos para tarefas individuais. (Ele não previu exatamente o robô-aspirador Roomba, já no mercado, mas ao menos propôs “robôs para jardinagem”.)

Asimov abordou também a superpopulação, estimando que o mundo abrigaria 6,5 bilhões em 2014. Ele se aproximou muito disso: a população do mundo atual é de aproximadamente 7,1 bilhões.

E, sim, ele também errou muita coisa. Ele previu que casas subterrâneas e subaquáticas se tornariam populares, além de “meios de transporte que fazem o menor contato possível com a superfície”, como carros e barcos que flutuariam com jatos de ar comprimido.

Uma profecia curiosa diz respeito à “doença do tédio”, uma vez que robôs e autômatos tivessem roubado a maioria de nossos empregos. “Os poucos sortudos que conseguissem envolver-se com trabalhos criativos de qualquer tipo seriam a verdadeira elite da humanidade, porque apenas eles fariam mais que apenas servir a uma máquina.” Se a tecnologia nos dá mais tempo livre, ela também se torna parte dele. Alguém aí assiste à Netflix?

Mas muitos dos prognósticos de Asimov podem ser classificados em uma terceira categoria que você pode não ter esperado: tecnologias que de fato são possíveis atualmente – mas que ainda não são comuns. Ele achou que janelas não seriam mais que “um detalhe arcaico”, graças à popularidade de painéis luminosos. É claro que temos a tecnologia de tela plana – mas ainda apreciamos observar a grama, o céu e pássaros de verdade.

Supôs também que nossas dietas incluiriam “produtos processados de levedura e algas”, como “pseudofilé” – item que pode deixar pensativos os amantes do churrasco de tofu. E previu o estabelecimento de colônias na Lua ainda em 2014. Nesses casos, o que impediu a realização de sua previsão não foi a tecnologia, ao contrário: nós parecemos não ter vontade, desejo ou coragem de torná-la realidade.

Seu sonho de “grandes usinas solares” operando no deserto demorou a se realizar. Mas estão finalmente sendo construídas, conforme obstáculos econômicos e políticos são superados. Outro exemplo: ele dá aos futuros humanos, nós, mais crédito que merecemos por enfrentar a superpopulação. Pode ter parecido lógico antecipar “campanhas mundiais em favor do controle de natalidade” – mas a oposição à contracepção continua forte.

As previsões de Asimov ilustram três lições para quem quer prever o futuro. Primeiro, quase todas as inovações tecnológicas demoram mais tempo para chegar do que imaginam os escritores de ficção científica. Segundo, a história da tecnologia é marcada por enormes mudanças – pense na internet, por exemplo – que nem mesmo Asimov previu. Por fim, muitos desenvolvimentos atraentes ou lógicos nunca se tornam realidade devido a falhas da própria humanidade. A falta, meu caro Isaac, não é da tecnologia, mas de nós mesmos.

Leia o texto completo: "Um controle remoto na sua cabeça", da edição de abril de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1FHaxa8

 

Leia mais:

Tecnologia e saúde da mente
Aplicativos para smartphones podem ajudar nos cuidados do sono; da enxaqueca e do humor

Bebês no ciberespaço
Contato precoce com informática pode ser usado a favor da educação