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É possível aprender a esquecer?

Dispomos de mecanismos de controle que nos permitem esconder ativamente uma recordação; esse processo, no entanto, pode prejudicar a memória geral 

agosto de 2017
Da redação
SHUTTERSTOCK

Se uma panela quente cai do fogão, é muito provável que sua primeira reação seja fazer um gesto para segurá-la, mas no último momento você retira a mão para evitar a queimadura. Isso ocorre porque o controle executivo tem a função de intervir para interceptar a ação, quebrando a cadeia de comandos automáticos. Algumas pesquisas recentes sugerem que o mesmo pode ser verdade quando se trata do reflexo da recordação – o que significa que o cérebro é capaz de interromper a recuperação espontânea de registros dolorosos.

As memórias são inseridas em uma teia de informações interligadas. Como resultado, uma lembrança pode acionar outra, fazendo-a aflorar sem esforço consciente. “Quando recebemos um estímulo que funciona como lembrete, a resposta automática da mente é nos fazer ‘um favor’, buscando conteúdos associados”, diz o neurocientista Michael Anderson, pesquisador da Universidade de Cambridge. “O problema é que às vezes somos lembrados do que não queremos.” 

Estudos de imagem já haviam indicado que as áreas frontais do cérebro podem amortecer a atividade do hipocampo, uma estrutura crucial para a memória, suprimindo assim a recuperação de lembranças. Buscando aprender mais sobre o assunto, Anderson e seus colegas investigaram o que acontece depois que a ação do hipocampo é interceptada. Os cientistas deram a 381 estudantes universitários a tarefa de decorar pares de palavras vagamente relacionadas. Mais tarde, mostraram um vocábulo aos voluntários e pediram, primeiro, que recordassem o outro e, em seguida, que fizessem o oposto: ativamente não pensassem sobre a outra palavra. Às vezes, entre uma tarefa e outra, eram mostradas aos participantes imagens incomuns, como um pavão de pé em um estacionamento.

Em artigo publicado no periódico científico Nature Communications, os pesquisadores descobriram que a capacidade dos participantes de recordar posteriormente os pavões e outras imagens estranhas foi cerca de 40% menor por terem sido instruídos a evitar memórias de palavras antes ou depois de ver as imagens, em comparação com os ensaios em que os estudantes tinham sido convidados a se lembrar das palavras.

A descoberta fornece evidência adicional de que dispomos de um mecanismo de controle de lembranças e sugere que tentar esconder ativamente uma recordação específica pode afetar negativamente a memória geral. Os pesquisadores chamam o fenômeno de “sombra amnésica” porque aparentemente bloqueia a lembrança de eventos não relacionados, que aconteceram enquanto a atividade do hipocampo estava diminuída. 

Atualmente, Anderson e a neurocientista Ana Catarino pesquisam a possibilidade de treinar pessoas para suprimir memórias. Eles estão conduzindo uma experiência na qual acompanham atividade cerebral dos participantes e, em tempo real, os informam sobre atividade amortecida de seu hipocampo. Os pesquisadores levantam a hipótese de que, uma vez aperfeiçoado, esse processo pode ajudar as pessoas a aprender como controlar o que querem esquecer, de forma seletiva. O que ainda não está claro é que destino dar à carga emotiva que acompanha as recordações dolorosas. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de agosto de Mente e Cérebro, disponível em: ImpressaAndroidIOS e WEB

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