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Efeito manada

Muitas vezes somos influenciados por emoções primitivas e por preconceitos absorvidos em nosso meio sociocultural

abril de 2015
Matthew Hutson
ADAM MCCAULEY

Mesmo o mais imparcial entre nós guarda preconceitos inconscientes, muitos deles enraizados no anseio de permanecermos em harmonia com quem nos identificamos e nos afastarmos daqueles que consideramos diferentes (e que, por isso, talvez representem ameaça). Essa tendência leva até mesmo a aplicarmos punições mais severas ou buscar vingança contra membros de outros grupos pelos quais sentimos aversão, ódio ou apenas desprezo. Os aspectos que nos afastam dos outros são os mais variados: crenças, religião, etnia, cor da pele, forma do corpo, gênero, lugar de nascimento, orientação sexual e uma infinidade de outras características nem sempre óbvias. O curioso é que essa inclinação pode ser observada desde a infância, segundo uma nova pesquisa. Felizmente, estar ciente disso pode nos ajudar a não agir agressivamente de forma tão repetitiva.

Gostamos de pensar que nossos juízos morais são consistentes, mas eles podem ser tão instáveis quanto nosso humor. Pesquisas revelam que as avaliações morais oscilam de acordo com percepções e emoções casuais – por exemplo, nos tornamos mais moralistas quando nos sentimos sujos ou contaminados: a simples visão de alimentos mofados é suficiente. Agora, uma série de estudos mostra que algumas pessoas recebem um tratamento discriminatório porque muitos consideram seu aspecto físico aversivo.

Em um estudo publicado no Journal of Experimental Psychology General, pesquisadores pediram a voluntários que lessem parágrafos curtos sobre indivíduos que cometem atos moralmente condenáveis do ponto de vista da cultura americana, como assistir a pornografia, falar palavrões ou permanecer dias sem banho. Algumas narrativas descreviam os transgressores como hippies, obesos ou moradores de comunidades carentes. Nesses casos, observaram os cientistas, os participantes tenderam a julgar o comportamento dos personagens mais severamente. Os questionários respondidos pelos voluntários revelam que suas avaliações foram influenciadas por sentimentos de temor e desconforto em relação a esses estereótipos.

Uma série de estudos de acompanhamento reforça essa relação ao apontar que esses mesmos personagens também tendem a receber mais reconhecimento por ações geralmente consideradas adequadas, como manter a casa arrumada. O que aparentemente parece ser uma expressão de tolerância revela outro lado do preconceito: os participantes do experimento se surpreendiam quando percebiam nas figuras marginalizadas atitudes que eles mesmos teriam ou esperariam de pessoas “semelhantes” a eles.

Se o “delito” proposto pelos autores do estudo não entrava em conflito com  valores relacionados à noção de “pureza” – como deixar de dar gorjeta ao garçom –, as diferenças entre os julgamentos desapareciam. “As pessoas geralmente acreditam que são boas julgadoras, que recorrem a valores universais e importantes quando avaliam situações”, diz o psicólogo social E. J. Masicampo, da Universidade Wake Forest, autor principal do estudo. “Mas basta a menção de que uma pessoa está acima do peso, por exemplo, para interferir no julgamento. Esse tipo de informação é capaz de desencadear emoções primitivas.”

Os pesquisadores buscaram identificar também efeitos reais desse comportamento. Verificaram nos registros do Departamento de Polícia de Nova York dados sobre todas as pessoas paradas na rua pelos policiais entre 2004 e 2013 e descobriram que, se a suspeita estivesse associada com a ideia de pureza (casos que envolviam uso de drogas, sexo pago ou atentado ao pudor), a probabilidade de obesos serem presos ou receberem intimação aumentava. Cada ponto a mais no índice de massa corporal subia o risco de punição em 1%.

Trabalhos anteriores já mostraram que preconceitos podem ser amenizados quando analisados conscientemente. Problematizar ideias relacionadas ao conceito de pureza pode nos ajudar a perceber se estamos discriminando pessoas culturalmente estigmatizadas. Afinal, o que pode provocar mais repulsa do que a intolerância?

 

Leia o texto completo: "Efeito manada", da edição de abril de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1FHaxa8





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