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Em casos de distúrbio alimentar, centros de recompensa sofrem disfunção

Anorexia está relacionada à baixa atividade dessas regiões; bulimia, à alta

abril de 2014
R. Gino Santa Maria/Shutterstock
Sentir prazer ao comer alimentos doces é natural – em contato com as papilas gustativas, o açúcar ativa regiões cerebrais de recompensa. No caso da anorexia e da bulimia, porém, a reação do cérebro ao sabor adocicado é, respectivamente, menos e mais intensa, de acordo com um estudo publicado no Journal of Psychiatry. Os autores, psiquiatras da Universidade da Califórnia em San Diego, afirmam que essa diferença reforça a hipótese de que existe uma predisposição neurobiológica para desenvolver esses transtornos alimentares.

Os cientistas registraram imagens do cérebro de 28 mulheres que se recuperaram de distúrbios alimentares havia pelo menos um ano – metade delas da anorexia, as outras da bulimia – e de 14 que nunca tiveram esse tipo de problema, todas elas com idade e peso próximos. Depois de uma noite de jejum, as voluntárias tomaram um café da manhã modesto, para nivelar seus níveis de saciedade, e em seguida receberam pequenas doses de açúcar por via intravenosa a cada 20 segundos, enquanto os pesquisadores captavam as imagens neurais.

 O cérebro das voluntárias que haviam superado os sintomas da anorexia, distúrbio marcado pela percepção irreal das formas corporais, mostrou menor atividade que o do grupo de controle em um centro de recompensa chamado córtex gustativo primário. Já no cérebro das que sofriam de bulimia, cujo principal sintoma é comer de forma exagerada e forçar o vômito em seguida, essa região reagiu ainda mais. “As respostas anormais ao açúcar podem significar uma predisposição para transtornos alimentares. Há cada vez mais evidências de que existem aspectos genéticos e biológicos subjacentes à maioria dos casos”, diz um dos autores, Walter Kaye, diretor do Programa de Pesquisa e Tratamento de Transtornos Alimentares da Universidade da Califórnia. 

O psiquiatra reconhece, porém, que existe a possibilidade de essas marcas neurobiológicas serem, na verdade, consequência e não causa dos sintomas. Seriam, assim, uma espécie de “rastro” dos distúrbios no cérebro. “Mas isso é pouco provável”, esclarece. “Considerando a valorização social da magreza nas culturas ocidentais, era de esperar que, caso não houvesse fatores biológicos subjacentes, muito mais mulheres sofressem desses distúrbios”, afirma Kaye. De fato, as estatísticas de anorexia na população feminina têm se mantido estáveis há décadas – nos Estados Unidos, por exemplo, é de menos de 1%. “A pressão social por um corpo magro e perfeito é sem dúvida um gatilho poderoso, mas que não basta em si para o desencadeamento do problema. Devemos levar em conta o fator predisposição”, diz.
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