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Em defesa das inutilidades necessárias

A vida intelectual e espiritual, bem como o autoconhecimento e a arte raramente têm aplicação imediata ou lucrativa, ainda assim, são esses campos do saber que nos fazem humanos

março de 2016
Gláucia Leal

Em 1985, a banda brasileira de rock Ultraje a rigor lançou em seu primeiro álbum, Nós vamos invadir sua praia, a música A gente somos inútil, que logo se tornaria sucesso nas rádios de todo o país. Passadas três décadas, a letra com o erro proposital de gramática volta e meia reaparece em vinhetas de algum programa de humor ou na internet. Por trás da crítica rasa e bem-humorada à falta de objetivo e comprometimento social da juventude – numa época em que surgia a campanha das Diretas Já –, a canção remete a uma pergunta fundante da filosofia: qual o sentido da existência?  E essa pode desdobrar-se em outra: o que é realmente necessário – ou útil? Em tempos de consumismo desenfreado de um lado e de iniciativas cada vez mais frequentes de cidadania e conscientização de outro, o professor de literatura italiana Nuccio Ordine, da Universidade da Calábria, debruça-se sobre essa questão em A utilidade do inútil – Um manifesto.  

O autor defende que, mesmo em períodos de crise como o que vivemos, nem só o que tem função clara, finalidade clara ou produz lucro pode ser considerado necessário.  Não por acaso, nos momentos mais sensíveis, o que parece dispensável é sacrificado, tanto na vida particular quanto na esfera pública. A discussão parece pertinente, justamente quando cortes no orçamento para a cultura, privatização de pesquisas, fechamento de livrarias e bancas de jornal são um fenômeno em tantos países. Ordine chama a atenção para a lógica do utilitarismo e para o que denomina “culto à posse”, movimentos que podem ser perigosos, pois colocam em risco as manifestações culturais, a criatividade, instituições de ensino e até mesmo valores afetivos e morais. Recém-lançado no Brasil, o livro foi publicado na Itália em 2013 e já foi traduzido em mais de 15 idiomas. 

Logo na introdução Ordine cita Pierre Hadot, autor de Exercícios espirituais e filosofia antiga (2002, lançado no Brasil em 2014 pela É Realizações): “E a tarefa da filosofia é mesmo a de desvendar e de revelar aos homens a utilidade do inútil ou, em outras palavras, ensiná-los a distinguir entre os dois sentidos da palavra útil”. E logo esclarece: “Numa acepção muito universal, coloco no centro das minhas reflexões a ideia da utilidade daqueles saberes cujo valor essencial está completamente desvinculado de qualquer fim utilitarista. Há saberes que têm um fim em si mesmos e que – exatamente graças à sua natureza gratuita e livre de interesses, distante de qualquer vínculo prático e comercial – podem desempenhar um papel fundamental no cultivo do espírito e no crescimento civil e cultural da humanidade. Nesse sentido, considero o que nos ajuda a nos tornarmos melhores”.

Ao longo do livro, Ordine recorre a pensadores como Platão, Ovídio, Aristóteles, Shakespeare, Montaigne, Kant, Locke, Cervantes, Ionesco, Bataile, Gramsci e tantos outros para construir um painel sobre o tema. Ao final, o leitor é brindado com um ensaio inédito em português, assinado pelo educador americano Abraham Flexner, que mostra como as ciências exatas também nos ensinam a utilidade do inútil. A gente “somos inútil”? Talvez não, depende de nossas escolhas. 



Essa matéria foi originalmente publicada na edição de março de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1RA98mI


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