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Ensino humanizado

Experiências afetivas em sala de aula ajudam adultos a aprender línguas estrangeiras, indica estudo da UnB

dezembro de 2007
Divulgação
(Agência UnB de Notícias) − Para um adulto, aprender uma língua estrangeira é bem mais complicado que para uma criança. Foi a partir dessa constatação que a professora de inglês Myriam de Castro e Silva defendeu a dissertação de mestrado A questão da afetividade no processo de ensino/aprendizagem de língua estrangeira (inglês): o que leva ao sucesso ou ao fracasso do aprendiz, no Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução do Instituto de Letras (IL) da Universidade de Brasília (UnB).

Myriam verificou que a afetividade entre alunos e professores é um fator essencial tanto no aprendizado quanto na perseverança dos estudantes.
No estudo, orientado pela professora Maria Luisa Ortíz Alvarez, a pesquisadora encarou o termo afetividade como “um estado emocional individual constituído por fatores psicológicos que podem ser positivos ou negativos”. Trocando em miúdos, os professores precisam tratar dos adultos com mais cuidado. Myriam é professora de inglês há dezoito anos e, durante esse tempo, notou que alguns alunos adultos costumam desistir das aulas por causa do tratamento que recebem dos professores. Essa falta de continuidade os impede de mudar de nível. Mas a vontade e, muitas vezes, a necessidade de aprender outra língua faz com que iniciem o curso várias vezes.

“Os adultos têm receio de se expor, ao contrário de crianças. Muitos deles são médicos, psicólogos, advogados, pessoas já formadas e respeitadas. Só que, quando entram na sala de aula, têm que começar do zero”, comenta Myriam. A professora de inglês relata casos de alunos universitários que choraram e o caso de um aluno que desmaiou durante uma avaliação oral, por causa da pressão exercida pelos professores. “O docente precisa identificar os problemas de cada aluno e ajudá-los a superar essas dificuldades. É preciso criar uma atmosfera favorável”, aconselha a pesquisadora.
A professora investigou os casos de seis alunos que já tinham feito outras tentativas de aprender inglês (um deles havia começado o curso 10 vezes). “Optamos por alunos de níveis iniciantes, recorrentes na desistência e que apresentavam problemas de aprendizagem de origem emocional, como inibição, baixa auto-estima, ansiedade, frustração e nervosismo”. A partir dos depoimentos, Myriam pôde investigar a importância da afetividade na continuidade dos estudos desses adultos.

RELATOS – “Eu abandonei o curso porque o professor não me deixava à vontade na sala de aula”, conta um dos alunos. “A professora era tão séria, que eu me sentia intimidado e ficava meio bloqueado”, comenta outro. “Eu adorei estudar inglês com a primeira professora, mas o segundo professor era tão exigente que me deu um branco e eu esqueci tudo que havia aprendido e saí da escola na segunda semana”, relata um terceiro participante da pesquisa.

De acordo com Myriam, já existem treinamentos direcionados ao ensino de língua estrangeira para adultos, e os professores sabem que os mais velhos precisam de mais atenção. Além disso, “as profissões vêm se humanizando. Atualmente, a maioria dos médicos, por exemplo, se preocupa com o lado afetivo dos seus pacientes além de se preocupar com o aspecto físico. O mesmo acontece com os professores, e em outras profissões” destaca a professora.

É preciso conscientizar o docente sobre o fato de que pode ser ele o responsável pelo abandono dos alunos. “Quase todos que entravam nas minhas turmas diziam já ter tentado estudar inglês várias vezes”, lembra a professora, que escolheu trabalhar com adultos porque acha mais gratificante. “Eles se sentem muito realizados quando conseguem aprender”, explica.